sexta-feira, 20 de agosto de 2010

Um Copo Cheio Não Emite Som


Era um mestre cuja pedagogia insistia na necessidade de percepcionar o vazio primordial. Instava os seus discípulos a que se esvaziassem completamente e percepcionassem o substrato vazio de tudo o existente. Mas tanto enfatizava este aspecto do ensinamento que um dia vários discípulos lhe disseram:
- Mestre, não é que estejamos a questionar os seus ensinamentos mas não acha que põe demasiada ênfase na doutrina do vazio?
O mestre sorriu e disse:
- Ao entardecer quero ver-vos a todos aqui com um copo cheio de água.
O dia declinava. Os discípulos reuniram-se com o mestre, cada um com o seu respectivo copo de água. O mestre disse:
Batam nos copos com qualquer coisa e façam com que emitam som. Quero ouvir a música dos vossos copos.
Assim fizeram os discípulos, mas o som era muito pobre e apagado.
- Esvaziem os copos e repitam a operação
Os discípulos deitaram fora a água dos copos e começaram a bater nele. Agora o som era muito vivo.
O mestre disse:
- Copo cheio não emite som.
Nesse instante, os discípulos compreenderam e o mestre sorriu-lhes, satisfeito.

Num recipiente cheio não cabe mais nada; se uma coisa não está receptiva, nada pode chegar a ela. Quando estamos a abarrotar de «tralha» intelectual e anímica, não resta espaço para ter a percepção da realidade subjacente e ficamos presos na nossa própria teia de opiniões, preconceitos e informação. Atrás das nuvens encontra-se o firmamento ilimitado. Quando a mente esvazia, manifesta-se o silêncio reconfortante e revelador. O silêncio mental é uma grande conquista; saber desprender-nos daquilo que nos satura psiquicamente é outra. A serpente tem a sua pele lustrosa porque, periodicamente, se livra dela para se renovar.

Sem comentários: