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terça-feira, 5 de maio de 2026

Assim Acontece

A incapacidade europeia em geral e de Portugal em particular para construir casas tem a sua imagem trágico-cómica no que é anunciado em Bruxelas e nas medidas do Governo em Lisboa. Estamos perante uma manifesta incapacidade na construção, que exigia que se adoptassem medidas que aumentassem rapidamente a oferta. Lamentavelmente nada disso acontece.   (Helena Garrido,OBSR)

António Costa não está obviamente sozinho neste ativismo feito de papéis da União Europeia. Os documentos elaborados pelo Parlamento Europeu mostram-nos igualmente um discurso de desejos.

A concertação social portuguesa não representa os trabalhadores. Representa quem já tem lugar garantido à mesa e não quer que mais ninguém se sente.     (Rui Rbeiro, OBSR)

Há um dado que ninguém gosta de dizer em voz alta: em Portugal, 7% dos trabalhadores estão sindicalizados. São esses 7% que tem poder de veto e que bloqueiam uma reforma que afeta toda a gente, os precários, os jovens que saltam de contrato em contrato sem nunca chegar a lado nenhum, os que trabalham a recibos verdes forçados, os que desistiram de procurar emprego porque perceberam que o mercado não está desenhado para eles. A concertação social portuguesa não representa os trabalhadores. Representa quem já tem lugar garantido à mesa e não quer que mais ninguém se sente.

Isto tem nome: chama-se corporativismo. Pode vir vestido com o vocabulário da proteção social, mas não muda o que é.  O problema não está [só] nos sindicatos. O problema está num Governo que confunde negociar com ceder, e que tratou a concertação social como um fim em si mesmo.

Precisão


O que me tranquiliza
é que tudo o que existe,
existe com uma precisão absoluta.

O que for do tamanho de uma cabeça de alfinete
não transborda nem uma fração de milímetro
além do tamanho de uma cabeça de alfinete.
Tudo o que existe é de uma grande exatidão.

Pena é que a maior parte do que existe
com essa exatidão
nos é tecnicamente invisível.

O bom é que a verdade chega a nós
como um sentido secreto das coisas.
Nós terminamos adivinhando, confusos,
a perfeição.

(Clarice Lispector)

O poema "Precisão", de Clarice Lispector, reflete sobre a exatidão absoluta da existência, onde cada coisa ocupa exatamente o seu lugar, mesmo que imperceptível a olho nu. A autora sugere que a perfeição é um sentido oculto que adivinhamos, focando na tranquilidade da ordem natural e na complexidade do que nos é invisível.

segunda-feira, 4 de maio de 2026

Notícias Ao Fim Da Tarde

Esta É A Frase (80)

A transparência absoluta é uma ideia totalitária para esconder a corrupção dos donos do regime totalitário. A transparência em Portugal parece uma gaiola doméstica.     (Carlos Marques Almeida, ECO)

A discussão sobre a transparência política é uma forma de não discutir política. Quando a atenção recai sobre o carácter dos políticos tal não é uma preocupação com o progresso de um país. Nesta abordagem supostamente democrática, o que na realidade se está a fazer é uma moralização da vida política para anular o adversário político. A moralidade em política é um tema perigoso pois suporta todos os abusos e toda a arbitrariedade. Quando se procura o corpo político incorruptível estamos a defender a República dos Santos. E a República dos Santos pode ter todas as virtudes canónicas, mas não é uma democracia.

Fala-se da privacidade dos políticos, elabora-se sobre o voyerismo do reality show, alimenta-se a política da inveja, agita-se a política do ódio, multiplicam-se os registos, declarações, aditamentos a todo o património dos políticos, tudo na ilusão que o problema da democracia pode ser resolvido por um controlo burocrático controlado politicamente por entidades independentes e nomeadas. Nomeações políticas a controlar eleitos políticos. 

O sistema alimenta-se assim da hipocrisia de quem está na política e do ressentimento de quem está fora da política. Estar na política é ser ladrão, corrupto, vaidoso na escolha dos fatos e dos carros pagos pelo contribuinte. Estar fora da política é ser explorado, enganado, atraiçoado por uma casta que só pretende subir na vida sem conhecimentos, competências e cultura. Nesta visão não há democracia que resista, mas apenas a política entregue a uma guerra civil entre eleitores e eleitos. Se os políticos vendem a alma também podem vender um país.  (Tópicos do texto de Carlos Marques Almeida, ECO)

Para Que Chorar


Pra que chorar
Se o sol já vai raiar
Se o dia vai amanhecer
Pra que sofrer
Se a lua vai nascer
É só o sol se pôr
Pra que chorar
Se existe amor
A questão é só de dar
A questão é só de dor
Quem não chorou
Quem não se lastimou
Não pode numa mais dizer
Pra que chorar
Pra que sofrer
Se há sempre um novo amor
Em cada novo amanhecer

(Vinicius de Moraes)

domingo, 3 de maio de 2026

Notícias Ao Fim Da Tarde

Esta É A Frase (79)

É a ausência de diálogo, ou a incapacidade de ouvir o outro, que nos tem levado à escalada do conflito para o patamar da guerra.  (Pedro Almeida Maia, Visão)

Há debates inúteis, e podemos identificá-los: quando uma das partes não está interessada em ouvir, mas apenas em impor a sua visão, ignorando qualquer argumento contrário.

O problema da polarização é mais relacional do que ideológico. Uma conversa sobre o que nos preocupa enquanto seres humanos inseridos numa sociedade é muito mais profunda do que uma conversa em torno de meras opiniões. Debatemos opiniões; discutimos preocupações. As preocupações são maioritariamente comuns à sociedade.

Sociedade


Grande parte da história social do mundo ocidental nas últimas três décadas
envolveu substituir o que funciona pelo que soa bem.

(Thomas Sowell)

sábado, 2 de maio de 2026

Notícias Ao Fim Da Tarde

Esta É A Frase (78)

Hoje, quanto mais incisiva e polarizadora for a mensagem, maior será o alcance, mais fortes os ‘soundbites’, mais numerosos os aplausos digitais. O problema central é que a política, que deveria ser o espaço da construção paciente de soluções, tornou-se um palco de impacto imediato.     (Adalberto Campos Fernandes, SOL)

Vivemos um tempo em que a política parece ter trocado a substância pela performance. O espaço público, nacional e internacional, está cada vez mais dominado por uma competição entre radicalismo, agressividade e dramatização, frequentemente apresentada como ‘coragem política’. A frontalidade transformou-se num espetáculo, a divergência em estratégia e o conflito em moeda de troca para a atenção mediática, enquanto o verdadeiro propósito da política, a resolução coletiva de problemas, é ofuscado.

A aparente ‘coragem’ frequentemente mascara a necessidade de ponderação diante de problemas complexos. A verdadeira coragem exige reflexão e escuta. Num ambiente que vê a moderação como uma fraqueza, poucos assumem esse papel essencial. O resultado é a degradação do debate público. A lógica agora descredibiliza adversários, caricatura posições e amplia as diferenças, criando uma narrativa de ‘nós contra eles’ que simplifica a realidade e empobrece a democracia. A atenção recai no confronto em vez da resolução de problemas, enfraquecendo o diálogo construtivo.