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sexta-feira, 10 de abril de 2026

Lei Laboral

 O que dizer a propósito das negociações sobre a lei laboral? Quando tudo fica igual, não é prudência, é estagnação. E essa, ao contrário do que se diz, não é uma posição neutra, é uma escolha.  (Ricardo Santos Ferreira, J Económico)

As 53 reuniões entre o Governo, a UGT e os patrões para mudar a lei do trabalho são uma anedota embrulhada numa tragédia nacional pintada em tons de farsa. Tanta conversa, tanta informação martelada e, um ano depois, continua tudo na mesma. Será o Parlamento a decidir a cena dos próximos capítulos, o que na verdade talvez até seja mais democrático – mais representativo do país –, embora ainda tenhamos de suportar mais algum teatro sindical até a Assembleia da República agarrar no volante. A sindicalização anda mesmo pelas ruas da amargura, a UGT representa formalmente menos de 3% dos trabalhadores, o que não só a inferioriza nas negociações como também ajuda a explicar o seu total afastamento da realidade. 
(Tópicos do texto de André Macedo, J Eonómico

Na verdade, a UGT e a CGTP são cada vez mais apenas satélites partidários sem pensamento próprio. São organismos caducos que exibem com orgulho delirante uma vasta coleção de ideias anacrónicas que não servem o país nem as pessoas. Também há empresários e gestores assim, moradores com residência fixa na aldeia dos ignorantes e prepotentes, mas o mercado, os consumidores e até os próprios trabalhadores em regra encarregam-se de resolver o problema – não que a mão invisível seja remédio para tudo, mas em muitos assuntos a concorrência é remédio santo.

Embriagai-vos


É necessário estar sempre bêbado. Tudo se resume a isso, eis o único problema. Para não sentir o fardo horrível do tempo, que abate e faz pender a terra, é preciso que nos embriaguemos sem cessar. Mas de quê? De vinho, de poesia ou de virtude, como achar melhor. Contanto que nos embriaguemos.

E se, algumas vezes, nos degraus de um palácio, na verde relva de um fosso, na desolada solidão do nosso quarto, você despertar com a embriaguez já atenuada ou desaparecida , pergunta ao vento, à vaga, à estrela, ao pássaro, ao relógio, a tudo o que foge, a tudo o que geme, a tudo o que rola, a tudo o que canta, a tudo o que fala, pergunta-lhes que horas são; e o vento, e a vaga, e a estrela, e o pássaro, e o relógio, hão de vos responder.

- É a hora da embriaguez! Para não ser martirizado pelo tempo, embriagai-te. Embriaga-te sem tréguas.

De vinho, de poesia, ou de virtude, como achar melhor"

(Charles Baudelaire)

quinta-feira, 9 de abril de 2026

Notícias Ao Fim Da Tarde

A Frase (61)

"A Rússia foi a grande beneficiária desta guerra. Moscovo recebeu um precioso balão de oxigénio com a escala dos preços do petróleo. E viu os EUA atolados num conflito que se poderá tornar uma guerra de atrito.        (Filipe Alves, DN)

O Irão demonstrou uma capacidade de resistência muito superior ao que Washington e Telavive antecipavam. O regime perdeu parte da sua liderança política e militar, eliminada pelos sucessivos ataques de decapitação, mas mostrou estar preparado para esse cenário: a coordenação descentralizada da resistência funcionou, apoiada num vasto arsenal de mísseis e drones de baixo custo. Mais importante ainda, Teerão soube explorar a sua posição geográfica e o controlo efetivo sobre o Estreito de Ormuz, um dos principais choke points energéticos do planeta, por onde passa uma fatia crítica do petróleo e do gás natural do Golfo.

Os Estados Unidos saem enfraquecidos deste conflito, tanto aos olhos dos aliados, como dos adversários. Ficou claro que, apesar da sua superioridade militar, não conseguiram impor a sua vontade ao Irão. E a guerra tornou ainda mais visível a fratura crescente com os aliados europeus e, talvez mais preocupante, a erosão da confiança dos estados árabes do Golfo.

A China também colheu dividendos, procurando posicionar-se como defensora do multilateralismo e do respeito pelo Direito Internacional, embora a sua forte dependência do petróleo do Golfo lhe deixe um sabor agridoce. Não será descabido supor que Pequim tenha pressionado Teerão a aceitar negociar.

O pior cenário para os Estados Unidos seria aquele que acelerasse tendências já em curso, rumo a um mundo multipolar, e diminuísse o peso do dólar como principal moeda de reserva global.  
(Tópicos sobre a Guerra do Irão,  Filipe Alves, DN)

Um Amor

Aproximei-me de ti; e tu, pegando-me na mão,
puxaste-me para os teus olhos
transparentes como o fundo do mar para os afogados. Depois, na rua,
ainda apanhámos o crepúsculo.
As luzes acendiam-se nos autocarros; um ar
diferente inundava a cidade. Sentei-me
nos degraus do cais, em silêncio.
Lembro-me do som dos teus passos,
uma respiração apressada, ou um princípio de lágrimas,
e a tua figura luminosa atravessando a praça
até desaparecer. Ainda ali fiquei algum tempo, isto é,
o tempo suficiente para me aperceber de que, sem estares ali,
continuavas ao meu lado. E ainda hoje me acompanha
essa doente sensação que
me deixaste como amada
recordação.

(Nuno Júdice, in “A Partilha dos Mitos" )

quarta-feira, 8 de abril de 2026

Notícias Ao Fim Da Tarde

A Frase (60)

 O mundo caminha para um abismo. Em todo o lado há milhões de pessoas que legitimam loucos pelo voto. Não é isso que me surpreende, foi sempre assim. O que não foi sempre assim é a ausência de quem nos convença de que há um sonho para ser sonhado. Já não existem existencialistas, neorrealistas, surrealistas e abjecionistas. Cada um está por si e a navegar à volta do seu umbigo – mesmo os que têm muito talento.    (Luís Osório, DN)   

Toda A Verdadeira Vida É Encontro

O ser humano torna-se eu pela relação com o você. 
À medida que me torno eu, digo você. 
Todo viver real é encontro.

 (Martin Buber)

O problema do homem como ser de relação, como ser aberto ao diálogo com o Tu.

Segundo Bubber, há uma distinção fundamental entre diferentes maneiras de nos posicionarmos no mundo. As nossas possibilidades de abertura quando em contato com a realidade objetiva e existencial definem a nossa vocação dialógica.
EU/TU - EU/ISSO

Existe o Eu-Tu, que é formado pelo sujeito-sujeito, sendo que o “Tu” representa o mundo de cada sujeito. Falar de Eu-Tu, diz-se respeito ao mundo da relação, trata-se de uma relação que é imediata, onde se há uma reciprocidade e uma dialogicidade. Quando se fala Eu-Isso, trata-se do mundo da experiência, do conhecimento, é o distanciamento do Tu, pois, quando se apropria de algo para a constituição de saberes, o Eu não se faz presente em uma relação, mas, em uma experimentação

Em outras palavras quando o melhor que habita em mim encontra o melhor que habita em você, criamos uma relação onde a nossa mentalidade e emoções estão alinhadas e ambas caminham na mesma direção. Para isso, é necessário que haja um diálogo, ou seja, uma interação direta entre as pessoas, de modo que uma integre a realidade da outra de forma ativa. Do contrário, se torna uma relação pautada pelo Eu- Isso, ou seja, pelo distanciamento..

O conceito de liberdade em Buber está atrelado ao indivíduo ciente da relação e da presença do Tu, desta maneira, o homem se torna hábil para tomar decisões, sendo, portanto, um ser livre e competente para encontrar seu destino

Eu-Tu e Tu-Eu é representado pela forma como olhamos o outro, como o outro nos vê e como nos reconhecemos mutuamente. Para isso, existem três elementos considerados essenciais e que são respectivamente: o diálogo, o encontro e a responsabilidade.

terça-feira, 7 de abril de 2026

Notícias Ao Fim Da Tarde

Assim Acontece

A estratégia imperialista de Trump está a destruir a ordem global. O ajustamento estratégico que as outras potências farão em resposta é difícil de prever. Mas o que sabemos é que o mundo está muito mais perigoso e blocalizado. E vai ficar ainda mais. Resta à Europa perceber que tudo mudou e assumir a coragem, mobilizar os recursos, e desenvolver a capacidade para continuar a apoiar a Ucrânia, que está a lutar valentemente pela liberdade. A Europa tem também de reforçar a sua autonomia estratégica, militar, digital e financeira, enquanto grande bloco mundial, o mais rapidamente possível.   (Filipe Santos, J Negócios)

A eficiência económica não é inimiga da justiça social, é a sua condição. Enquanto o Estado continuar a confundir bondade com economia, continuará a falhar nas duas.   (João Tovar Salles, ECO)

Há leis que envelhecem tão mal como os edifícios que pretendem proteger, e o arrendamento vitalício é um exemplo paradigmático. Trata-se de uma distorção (e aberração) jurídica e económica que, em nome de uma compaixão social mal desenhada, bloqueia o funcionamento do mercado da habitação, desincentiva o investimento e gera injustiças profundas entre cidadãos.

Portugal é hoje uma exceção europeia. Na maioria das economias avançadas, a proteção no arrendamento é temporária, transparente e pública, compatível com a liberdade contratual e os direitos de propriedade. Aqui, mantivemos um regime onde a propriedade existe formalmente, mas o uso está sequestrado. A compaixão transformou-se numa forma de expropriação disfarçada. Os defensores do sistema afirmam que acabar com o arrendamento vitalício seria “desumano”. Mas o que é verdadeiramente desumano é perpetuar uma ficção jurídica que adia soluções reais. Nenhum mercado funciona com contratos perpétuos, sem ajustamento, sem partilha de risco e sem responsabilidade pública. A economia política mostra que quando o Estado evita decisões difíceis, transfere os custos para grupos difusos e perpetua ineficiências. Não se trata de despejar idosos, mas de devolver racionalidade ao sistema.