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quarta-feira, 1 de abril de 2026

Notícias Ao Fim Da Tarde

A Frase (58)

O Congresso do Partido Socialista, realizado em Viseu, expôs com clareza uma inquietante evidência: o partido permanece num limbo estratégico, incapaz de definir com nitidez o seu lugar no actual sistema político. Entre a retórica da oposição firme e a disponibilidade para o compromisso, o PS parece aprisionado numa ambiguidade que fragiliza a sua credibilidade.    (Aline Hall de Beuvink, DN)

A questão central mantém-se, portanto, sem resposta: pretende o PS afirmar-se como uma oposição determinada ou como um parceiro potencial de negociação? O que emergiu deste congresso foi, sobretudo, um “nim” político: uma hesitação estrutural entre confronto e acomodação. José Luís Carneiro promete não se calar perante os erros do Governo, mas simultaneamente insiste numa postura construtiva e dialogante, reiterando a ideia de uma oposição responsável e “propositiva”. - Ora, esta duplicidade não esclarece: dilui.

Da Observação


Não te irrites, por mais que te fizerem ...
Estuda, a frio, o coração alheio.
Farás, assim, do mal que eles te querem,
O teu mais amável e sutil recreio...

(Mário Quintana) 

terça-feira, 31 de março de 2026

Notícias Ao Fim Da Tarde

Assim Acontece

Portugal não tem um problema de falta de casas. Tem um problema de falta de confiança. Mas tem também algo mais profundo e raramente assumido: um sistema de incentivos que beneficia diretamente do mau funcionamento do mercado de arrendamento. Enquanto este bloqueio persistir, continuaremos a empurrar gerações inteiras para o endividamento como única forma de acesso à habitação.   

Sem preços livres, não há sinal económico; sem justiça célere e a funcionar, não há confiança, e sem confiança, não há mercado. Proteger a propriedade, garantir contratos e permitir o funcionamento do mercado não é apenas uma opção económica: é uma exigência ética. Recuperar a confiança é o primeiro passo. E sem confiança, nenhuma reforma será suficiente.

Um mercado de arrendamento historicamente disfuncional em que décadas de congelamento de rendas, legislação enviesada e uma justiça lenta criaram um ambiente de desconfiança tal que faz com que o proprietário não se fie do sistema, que o inquilino cumpra, que o imóvel seja preservado e acima de tudo, não acredita que a justiça funcione em tempo útil quando há incumprimento e a razão impõe-se à emoção: prefere não arriscar por isso não arrenda.

A solução não exige complexidade, mas sim clareza e coragem política.
Segundo, é indispensável restaurar a credibilidade do contrato. Isso implica tribunais especializados, decisões rápidas e execução efetiva. Um princípio simples deve prevalecer: quem não paga, sai; quem destrói, paga e quem, de forma temporária, não pode, tem tempo para reorganizar a sua vida, com urgência e dignidade.
A evidência recente mostra que, quando a confiança regressa, a oferta responde rapidamente e os preços ajustam-se. Não há razão estrutural para que Portugal não consiga replicar este efeito.

O verdadeiro dilema nacional é continuar a sustentar um modelo que empurra cidadãos para o endividamento ao invés de libertar um mercado que pode funcionar com regras claras.

O Estado, quando interfere de forma arbitrária, tentando impor uma justiça social desligada da realidade económica, destrói os incentivos, reduz a oferta e agrava precisamente os problemas que pretende ver resolvidos.    (tópicos do texto de Jorge Coutinho Moreira, OBSR

Subia A Lua Leve


Um luar fluido e veludoso como um bálsamo
Ungia a noite voluptuosa e ardente.
A sua luz era tão branca que tornava o céu diáfano...
Subia a lua leve como o pensamento.
Eu dialogava com o silêncio... Uma toada rústica
De flautas e violões transportou-me à saudade.
E, abstrato de mim mesmo, eu te bendisse, ó música,
Que da tristeza de pensar me libertavas!

(Da Costa e Silva) 

segunda-feira, 30 de março de 2026

Notícias Ao Fim Da Tarde

"Quem Somos" Ainda Sem Resposta

Atuamos à escala do planeta com uma consciência ainda calibrada para a tribo, para o trimestre. Temos uma arquitetura de consciência que não evoluiu ao ritmo dos instrumentos que criou. Há uma ferida que a espécie nunca tratou. Não por falta de inteligência, mas porque a ferida é a própria espécie. (...)

Apenas o Homo sapiens acordou um dia com a consciência de si próprio e ficou paralisado perante a pergunta que esse acordar gerou.

E a resposta que deu a essa pergunta foi sempre a mesma, sob mil formas diferentes: inventou um sentido exterior a si próprio. Um deus, uma nação, uma classe, um progresso, uma raça, um mercado. Qualquer coisa que justificasse a existência individual como parte de algo maior e, portanto, menos aterrador.

As tradições espirituais perceberam isto e propuseram a redenção, a iluminação, a salvação, como saída do paradoxo. A ciência propôs a razão e a educação. A filosofia política propôs as instituições e os direitos. Todas falharam não porque fossem erradas na intenção, mas porque tentaram resolver o paradoxo em vez de o integrar. E o paradoxo não se resolve. Habita-se.

A pergunta “quem somos?” não tem resposta. Por este caminho em que seguimos, nunca terá. Mas talvez a urgência de a fazer nunca tenha sido tão pertinente como agora. Porque o que está em jogo não é uma civilização. É a continuidade do único ser conhecido no universo que se perguntou o que era. E que ainda não sabe a resposta, porque não há uma resposta a obter, mas sim a construir.

Será que teremos tempo e discernimento para a concretizar talvez a urgência de a fazer nunca tenha sido tão pertinente como agora. Porque o que está em jogo não é uma civilização. É a continuidade do único ser conhecido no universo que se perguntou o que era. E que ainda não sabe a resposta, porque não há uma resposta a obter, mas (...)   

(tópicos do texto de Antero de Carvalho, OBSR)

Escrita


Aqui na minha frente a folha branca do papel, à espera; dentro de mim esta angústia, à espera: e nada escrevo. A vida não é para se escrever. A vida — esta intimidade profunda, este ser sem remédio, esta noite de pesadelo que nem se chega a saber ao certo porque foi assim — é para se viver, não é para se fazer dela literatura.    (Miguel Torga)

domingo, 29 de março de 2026

Notícias Ao Fim Da Tarde