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domingo, 19 de abril de 2026

Inicial


O dia não é hora por hora,
é dor por dor,
o tempo não se dobra,
não se gasta,
mar, diz o mar,
sem trégua,
terra, diz a terra,
o homem espera.
E só
seu sino
está ali entre os outros
guardando em seu vazio
um silêncio implacável
que se repartirá
quando levante sua língua de metal
onda após onda.

De tantas coisas que tive,
andando de joelhos pelo mundo,
aqui, despido,
não tenho mais que o duro meio-dia
do mar, e um sino.

Eles me dão sua voz para sofrer
e sua advertência para deter-me.

Isto acontece para todo o mundo,
continua o espaço.

E vive o mar.

Existem os sinos.

(Pablo Neruda)

sábado, 18 de abril de 2026

Notícias Ao Fim Da Tarde

Novas Espécies De Aranhas Descobertas No Alentejo


Seis novas espécies de aranhas descobertas no Alentejo
Uma aranha do género que inspirou a personagem do Homem-Aranha está entre seis novas aranhas espécies descobertas no Alentejo, revelou em comunicado a Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa (FCUL).

Uma das seis aranhas encontradas na Herdade da Ribeira Abaixo é do género Scytodes e tem “o traço distintivo de cuspir teia com veneno para aprisionar as presas”, pertencendo ao grupo da “aranha que serviu de inspiração para a história do Homem-Aranha”, o super-herói da Marvel Comics criado por Stan Lee e Steve Ditko em 1962.

Das restantes cinco aranhas, “duas das espécies pertencem ao género Dysdera (que inclui as aranhas-de-tenaz que se alimentam de bichos-de-conta); outras duas pertencem ao género Harpactea (mais pequenas, escuras e elegantes que as do género Dysdera)” e “há uma espécie classificada dentro do género Pelecopsis (típicas caçadoras furtivas)”, adianta o comunicado.

Agora em laboratório, Pedro Cardoso trabalha com Miguel Sousa, investigador do CE3C e aluno de mestrado em Biologia da Conservação na FCUL, no processo de descrição científica das espécies descobertas. “Temos a certeza de que são espécies que ainda não eram conhecidas e queremos continuar com a descrição científica de cada uma delas” (Público)

Sou Feita De Retalhos

Pedacinhos coloridos de cada vida que passa pela minha e que vou costurando na alma.
Nem sempre bonitos, nem sempre felizes, mas me acrescentam e me fazem ser quem eu sou.
Em cada encontro, em cada contato, vou ficando maior...
Em cada retalho, uma vida, uma lição, um carinho, uma saudade...
Que me tornam mais pessoa, mais humana, mais completa.

E penso que é assim mesmo que a vida se faz: de pedaços de outras gentes que vão se tornando parte da gente também.
E a melhor parte é que nunca estaremos prontos, finalizados...
Haverá sempre um retalho novo para adicionar a alma.

Portanto, obrigada a cada um de vocês, que fazem parte da minha vida e que me permitem engrandecer minha história com os retalhos deixados em mim. Que eu também possa deixar pedacinhos de mim pelos caminhos e que eles possam ser parte das suas histórias.

E que assim, de retalho em retalho, possamos nos tornar, um dia, um imenso bordado de "nós".

(Cris Pizzimenti)

sexta-feira, 17 de abril de 2026

Notícias Ao Fim Da Tarde

Esta É A Frase (66)

 Os exageros de Trump acentuam os perigos de reduzir a política ao uso da força. A arte de governar requer não apenas conquistar o poder, mas mantê-lo. O que diria Maquiavel a Trump?

O oscilar entre a narrativa de impotência e a exibição súbita de controlo absoluto revela, mais uma vez, a desorientação estratégica e a falta de coerência de Trump, cuja erosão de credibilidade internacional evidencia cada vez mais o suicídio hegemónico dos EUA. Um declínio autoinduzido por Trump, que está num beco sem saída, com a escalada de ameaças resultar… em nada.  (Lígia Simões, J Económico)

Paradoxo Natural


Na luz indecisa que deixa adivinhar
a manhã, a névoa que impregna o ar
desfaz-se quando os dedos de fogo do sol
a limpam, restituindo ao dia
a sua transparência. Mas a mulher que
ocupa o centro da paisagem não
se apercebe da mudança. O seu corpo
pertence à terra, e entrega-se
ao ritmo subterrâneo das raízes, ouvindo
o canto que regula a passagem
das estações. Um desejo de sombra apodera-se
da sua alma; e conta o tempo que falta
para a noite, para se entregar ao silêncio
do mundo, no lento eclipse
dos sentimentos.

(Nuno Júdice)

quinta-feira, 16 de abril de 2026

Notícias Ao Fim Da Tarde

Esta É A Frase (65)

 Portugal, com o seu espaço atlântico, os seus recursos renováveis e a sua posição geográfica, pode passar de periferia energética a um dos pilares da segurança energética europeia no Atlântico.

Num momento em que a Europa procura reduzir dependências energéticas externas, o espaço atlântico português pode transformar-se num ativo estratégico para a segurança energética do continente. Com a eletrificação da economia, o crescimento da procura energética e o potencial da eólica offshore, Portugal pode desempenhar um papel cada vez mais relevante no novo mapa energético europeu.

Mais do que novos parques eólicos, trata-se de construir uma nova infraestrutura energética no Atlântico. Uma rede offshore interligada poderá ligar centros de produção renovável a diferentes países europeus, reforçando a segurança energética do continente e criando novas rotas de eletricidade limpa.

Além da segurança energética, esta transformação está também alinhada com a agenda de resiliência territorial associada ao PTRR, que procura reforçar a capacidade de resposta do país a fenómenos climáticos extremos.

A transição energética europeia não é apenas uma mudança tecnológica. É também uma redefinição geográfica do sistema energético do continente. Num continente historicamente dependente de energia externa, esta transformação representa uma mudança estrutural na forma como a Europa garante a sua autonomia estratégica, estabiliza os custos da energia e reduz a exposição a choques geopolíticos.

(Tópicos do texto de Tiago Morais, J Económico)

A Nostalgia Da Europa

Na Idade Média, a unidade europeia repousava na religião comum. Nos Tempos Modernos, ela cedeu o lugar à cultura (à criação cultural) que se tornou na realização dos valores supremos pelos quais os Europeus se reconhecem, se definem, se identificam. Ora, hoje, a cultura cede, por sua vez, o lugar.Mas, a quê e a quem? Qual é o domínio onde se realizaram valores supremos susceptíveis de unir a Europa? As conquistas técnicas? O mercado? A política com o ideal de democracia, com o princípio da tolerância? Mas, essa tolerância, que já não protege nenhuma criação rica nem nenhum pensamento forte, não se tornará oca e inútil? Ou então, será que podemos entender a demissão da cultura como uma espécie de libertação à qual nos devemos abandonar com euforia? Não sei. A única coisa que julgo saber é que a cultura já cedeu o seu lugar. Assim, a imagem da identidade europeia afasta-se do passado. Europeu: aquele que tem a nostalgia da Europa.

(Milan Kundera, na "A Arte do Romance")