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domingo, 24 de maio de 2026

Notícias Ao Fim Da Tarde

Esta É A Frase (94)

Há, nos nossos tempos, uma nova figura de estilo que floresce nos salões mediáticos e nas cátedras improvisadas dos comentadores de serviço: a “sensação de insegurança”. Não é a insegurança, note-se, essa vulgar e plebeia realidade feita de assaltos, desacatos e inquietações nocturnas; mas a sua versão higienizada, quase estética, como se o medo tivesse passado a ser uma questão de gosto, um capricho emocional das massas.         (João Nuno Patrício, OBSR)

Ora, os números (esses ingratos, que teimam em nem sempre alinhar com a narrativa) mostram que a criminalidade geral aumentou 8,3% em 2023, e a violenta 5,6% (RASI 2023). Em 2024, a criminalidade geral diminuiu 4,6%, mas a criminalidade violenta e grave aumentou 2,6% (RASI 2024). Nada de particularmente alarmante, dir-se-á. Apenas o suficiente para justificar que alguém feche a porta com mais cuidado ou olhe duas vezes para trás ao atravessar a rua.

O problema, asseguram-nos, não reside no que acontece, mas naquilo que julgamos que acontece. A realidade tornou-se, assim, um detalhe secundário; o essencial é a pedagogia da percepção. Há, no fundo, uma missão civilizadora em curso: ensinar o cidadão a não sentir o que sente.

Entretanto, o país mudou. Mudou depressa, talvez depressa demais para o conforto de quem aprecia transformações lentas.

Alguns estudos mostram que mudanças rápidas na composição social podem reduzir a confiança e aumentar tensões locais. Todas as sociedades possuem um certo ritmo de absorção social e institucional; quando esse ritmo é violentamente ultrapassado, surgem tensões menos morais do que estruturais.

O discurso oficial deixa então transparecer a sua fragilidade. Ao negar a ligação entre transformação social e insegurança.

Talvez fosse mais prudente admitir o óbvio, ou seja, que a percepção não nasce no vazio, que mudanças rápidas geram tensões, e que a segurança é um equilíbrio delicado entre factos e confiança. Mas isso exigiria uma virtude rara: a de olhar para a realidade sem filtros ideológicos e sem paternalismo. (texto na íntegra)











Mas isso, evidentemente, será apenas imaginação. No fundo, o debate tornou-se quase semântico: quando certos sectores dizem “é apenas percepção”, esquecem-se de que a percepção social nasce frequentemente da observação empírica do quotidiano. O cidadão não lê o RASI antes de decidir se evita uma rua à noite. Ele reage ao ambiente, aos episódios que presencia, às mudanças do espaço urbano e à quebra de confiança colectiva


O problema, asseguram-nos, não reside no que acontece, mas naquilo que julgamos que acontece. A realidade tornou-se, assim, um detalhe secundário; o essencial é a pedagogia da percepção. Há, no fundo, uma missão civilizadora em curso: ensinar o cidadão a não sentir o que sente.Entretanto, o país mudou. Mudou depressa, talvez depressa demais para o conforto de quem aprecia transformações lentas. Em poucos anos, Portugal passou a acolher mais de um milhão e meio de cidadãos estrangeiros, número que, se não impressiona os espíritos cosmopolitas, pelo menos altera a paisagem humana das ruas, dos transportes, dos bairrosO problema, asseguram-nos, não reside no que acontece, mas naquilo que julgamos que acontece. A realidade tornou-se, assim, um detalhe secundário; o essencial é a pedagogia da percepção. Há, no fundo, uma missão civilizadora em curso: ensinar o cidadão a não sentir o que sente.Entretanto, o país mudou. Mudou depressa, talvez depressa demais para o conforto de quem aprecia transformações lentas. Em poucos anos, Portugal passou a acolher mais de um milhão e meio de cidadãos estrangeiros, número que, se não impressiona os espíritos cosmopolitas, pelo menos altera a paisagem humana das ruas, dos transportes, dos bairros.





















O Teu Olhar


Passam no teu olhar nobres cortejos,
Frotas, pendões ao vento sobranceiros,
Lindos versos de antigos romanceiros,
Céus do Oriente, em brasa, como beijos,

Mares onde não cabem teus desejos;
Passam no teu olhar mundos inteiros,
Todo um povo de heróis e marinheiros,
Lanças nuas em rútilos lampejos;

Passam lendas e sonhos e milagres!
Passa a Índia, a visão do Infante em Sagres,
Em centelhas de crença e de certeza!

E ao sentir-se tão grande, ao ver-te assim,
Amor, julgo trazer dentro de mim
Um pedaço da terra portuguesa!

(Florbela Espanca)

sábado, 23 de maio de 2026

Notícias Ao Fim Da Tarde

Esta É A Frase (93)

O dragão acordou porque percebeu que o poder moderno não se exerce apenas com exércitos. Exerce-se através do comércio, da tecnologia, da energia, da logística, dos minerais críticos, dos portos e da capacidade de criar dependências. A China não precisa de substituir os Estados Unidos para transformar a ordem internacional. Basta-lhe impedir que os Estados Unidos continuem a organizá-la sozinhos(Miguel Baumgartner J Económico) 
 
Napoleão talvez tivesse razão. O gigante acordou. A diferença é que já não estamos a assistir ao despertar. Estamos a viver as consequências.

Pequim não procura convencer o mundo de que é moralmente superior. Procura demonstrar que é materialmente útil. E, em política internacional, a utilidade é muitas vezes mais convincente do que a virtude.

Talvez seja essa a maior diferença entre a China e o Ocidente. As democracias vivem em ciclos eleitorais. A liderança chinesa pensa em décadas. Podemos e devemos criticar a repressão, a censura e o controlo absoluto do Partido Comunista. Mas não podemos ignorar a consistência estratégica que esse modelo lhe dá. A China não é admirável por ser autoritária. É perigosa porque transformou o autoritarismo em planeamento de longo prazo. (ler texto na íntegra)

Liberdade Querida E Suspirada


Liberdade querida e suspirada,
Que o Despotismo acérrimo condena;
Liberdade, a meus olhos mais serena,
Que o sereno clarão da madrugada!

Atende à minha voz, que geme e brada
Por ver-te, por gozar-te a face amena;
Liberdade gentil, desterra a pena
Em que esta alma infeliz jaz sepultada;

Vem, oh deusa imortal, vem, maravilha,
Vem, oh consolação da humanidade,
Cujo semblante mais que os astros brilha;

Vem, solta-me o grilhão da adversidade;
Dos céus descende, pois dos Céus és filha,
Mãe dos prazeres, doce Liberdade!

(Manuel Maria Barbosa du Bocage)
 
  • A liberdade é tratada como uma divindade ou uma musa distante, essencial para a dignidade humana.
  • Bocage não procurava apenas a liberdade física para sair da prisão, mas sim a liberdade de pensamento, de expressão e de criação, tornando estes versos num hino intemporal.

sexta-feira, 22 de maio de 2026

Notícias Ao Fim Da Tarde

Esta É A Frase (92)

O barómetro mostra, um Governo em perda e uma oposição que ainda não convence. Mostra um país impaciente, exigente e cansado. E, sobretudo, mostra que o tempo político se tornou mais curto do que   nunca - algo que tanto o Governo como a oposição não podem ignorar.  (Filipe Alves, DN)

Há três fatores que ajudam a explicar o que está a acontecer e nenhum deles implica que o projeto político da AD esteja já condenado ao fracasso, apesar do rápido desgaste. Ainda muita água pode correr debaixo da ponte e o primeiro-ministro mantém margem para inverter o rumo. (...)

O primeiro fator é a natureza minoritária do Governo, que limita a sua capacidade de ação em áreas decisivas. Nenhum projeto verdadeiramente reformador pode avançar se depender simultaneamente do acordo do PS e do Chega.  (...)

O segundo fator é o das prioridades políticas. A nova lei laboral, mal recebida pela maioria do eleitorado, tornou-se um símbolo de desconexão entre o Governo e as expectativas dos portugueses. A aposta em projetos que não constavam do programa eleitoral, combinada com dificuldades em concretizar o que foi prometido, está a criar um ruído que não favorece o Executivo.   (...)

O terceiro fator é talvez o mais difícil de gerir. Vivemos num tempo em que já não temos paciência para ler um jornal inteiro de fio a pavio, ou ver um filme sem olhar para o telemóvel. Consumimos fragmentos, vídeos curtos e estímulos rápidos. Essa aceleração contaminou a política. Já não estamos habituados à estabilidade. Queremos tudo para ontem.

Fazer Parar O Giro Sobre Si


Fazer parar o giro sobre si
Do vácuo pensamento, pôr a roda
Em movimento sobre a terra escura

Poção que por magia de bebê-la
A dormente vontade em mim disperte
De viver… (...)

(Ricardo Reis)

A ode de Ricardo Reis (heterónimo de Fernando Pessoa) começa com o verso «Fazer parar o giro sobre si». Esta passagem reflete a angústia e o desejo de controlo face à vertigem da existência.

quinta-feira, 21 de maio de 2026

Notícias Ao Fim Da Tarde