Pesquisar neste blogue

sexta-feira, 22 de maio de 2026

Notícias Ao Fim Da Tarde

Esta É A Frase (92)

O barómetro mostra, um Governo em perda e uma oposição que ainda não convence. Mostra um país impaciente, exigente e cansado. E, sobretudo, mostra que o tempo político se tornou mais curto do que   nunca - algo que tanto o Governo como a oposição não podem ignorar.  (Filipe Alves, DN)

Há três fatores que ajudam a explicar o que está a acontecer e nenhum deles implica que o projeto político da AD esteja já condenado ao fracasso, apesar do rápido desgaste. Ainda muita água pode correr debaixo da ponte e o primeiro-ministro mantém margem para inverter o rumo. (...)

O primeiro fator é a natureza minoritária do Governo, que limita a sua capacidade de ação em áreas decisivas. Nenhum projeto verdadeiramente reformador pode avançar se depender simultaneamente do acordo do PS e do Chega.  (...)

O segundo fator é o das prioridades políticas. A nova lei laboral, mal recebida pela maioria do eleitorado, tornou-se um símbolo de desconexão entre o Governo e as expectativas dos portugueses. A aposta em projetos que não constavam do programa eleitoral, combinada com dificuldades em concretizar o que foi prometido, está a criar um ruído que não favorece o Executivo.   (...)

O terceiro fator é talvez o mais difícil de gerir. Vivemos num tempo em que já não temos paciência para ler um jornal inteiro de fio a pavio, ou ver um filme sem olhar para o telemóvel. Consumimos fragmentos, vídeos curtos e estímulos rápidos. Essa aceleração contaminou a política. Já não estamos habituados à estabilidade. Queremos tudo para ontem.

Fazer Parar O Giro Sobre Si


Fazer parar o giro sobre si
Do vácuo pensamento, pôr a roda
Em movimento sobre a terra escura

Poção que por magia de bebê-la
A dormente vontade em mim disperte
De viver… (...)

(Ricardo Reis)

A ode de Ricardo Reis (heterónimo de Fernando Pessoa) começa com o verso «Fazer parar o giro sobre si». Esta passagem reflete a angústia e o desejo de controlo face à vertigem da existência.

quinta-feira, 21 de maio de 2026

Notícias Ao Fim Da Tarde

Esta É A Frase (91)

Um país que já conquistou oceanos… mas ainda hesita em conquistar a si próprio .Portugal é um país estranho.Um país que ensinou o mundo a navegar quando o mundo ainda tinha medo do mar.Um país que, durante séculos, viveu da coragem.E, no entanto, quando olhamos para dentro da sociedade portuguesa contemporânea, encontramos um paradoxo curioso: Portugal é hoje um país profundamente marcado pelo medo.
       (José Borralho  CNN)

Não um medo dramático, visível, explosivo. Não o medo que se vê nas ruas ou que se declara em voz alta. É um medo mais subtil, mais cultural, mais silencioso. Um medo que não se grita, vive-se.

Sente-se nas decisões adiadas. Nos sonhos que nunca chegam a ser tentados. Nas ideias que ficam guardadas nas gavetas. Nas conversas onde alguém diz “um dia gostava de…” e imediatamente a seguir acrescenta “mas isso não é para mim”.O medo de falhar cria vidas seguras. Mas também cria vidas pequenas.

Existe ainda outro medo profundamente enraizado na cultura portuguesa: o medo do julgamento.

Muitas decisões importantes da vida são tomadas com uma pergunta silenciosa na cabeça: “O que é que os outros vão pensar?”

Outro medo profundamente presente na sociedade portuguesa é o medo da instabilidade.

As últimas décadas deixaram marcas profundas na memória coletiva do país: crises económicas, austeridade, desemprego elevado, salários estagnados e uma permanente sensação de fragilidade económica.

O Argumento Do Escândalo E Da Briga


 Aquele que fundamenta seu argumento no escândalo e na briga mostra que sua razão é fraca.”

(Montaigne)

quarta-feira, 20 de maio de 2026

Assim Acontece

 Nas duas ou três últimas décadas falar de estratégia, planeamento e intervenção do Estado na economia foi tratado como heresia económica. Como já aqui escrevemos, o recente PTRR parece assinalar um momento de inflexão em que essas ideias são retomadas, não como desvio, mas como desígnio assumido.

Durante este período, a política económica em Portugal foi moldada por uma visão minimalista da intervenção pública. Pensar o longo prazo, selecionar prioridades de investimento, falar de política industrial ou de redução de vulnerabilidades estruturais era visto como incompatível com uma suposta racionalidade económica.

Ao recuperar uma linguagem de transformação estrutural, de planeamento e ao assumir um horizonte temporal de cerca de uma década, o PTRR reabilita conceitos durante anos afastados do centro do debate económico. Essa mudança discursiva merece ser reconhecida, mas no contexto internacional atual, está longe de ser suficiente.             (António Menfonça, J Económico)

Notícias Ao Fim Da Tarde

Esta É A Frase (90)

A dificuldade económica tanto pode formar pessoas extraordinárias, como pode fabricar indivíduos ressentidos, obcecados pela necessidade de provar constantemente que venceram na vida.    (Liliana Carona, Público)

Nunca sirvas a quem serviu…
De acordo com o portal Ciberdúvidas, o provérbio popular “Não peças a quem pediu, nem sirvas a quem serviu” é enquadrado por José Alves Reis, em Provérbios e Ditos, 1996.

A dificuldade económica tanto pode formar pessoas extraordinárias, como pode fabricar indivíduos ressentidos, obcecados pela necessidade de provar constantemente que venceram na vida e que, por isso mesmo, adquiriram uma espécie de legitimidade moral para olhar os outros de cima para baixo. Há quem nunca saia verdadeiramente do lugar onde se passam dificuldades, apenas trocam de ângulo, alimentando a necessidade permanente de mostrar ao mundo que agora pode escolher o vinho da carta sem olhar aos preços.

Não raras vezes, os ambientes profissionais mais tóxicos nascem precisamente desta insegurança social mal resolvida de quem passou a vida inteira a querer provar que merece estar sentado à mesa dos importantes. E por isso, trabalhar para quem já serviu pode ser uma dor de cabeça, uma espécie de transe em que quem ocupa uma posição hierárquica superior define rotinas, salários e até graus de tolerância humana com base no seu passado, mas nunca no seu presente, tudo isto embrulhado na narrativa conveniente do “eu sou tão boazinha” ou “eu sou tão humilde”. Não são. (...)

Convite

 

Não sou a areia
onde se desenha um par de asas
ou grades diante de uma janela.
Não sou apenas a pedra que rola
nas marés do mundo,
em cada praia renascendo outra.
Sou a orelha encostada na concha
da vida, sou construção e desmoronamento,
servo e senhor, e sou
mistério

A quatro mãos escrevemos este roteiro
para o palco de meu tempo:
o meu destino e eu.
Nem sempre estamos afinados,
nem sempre nos levamos
a sério.

(Lya Luft)