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domingo, 5 de julho de 2026

Sonhar


Sonhar é transportar-se em asas de ouro e aço
Aos páramos azuis da luz e da harmonia;
É ambicionar o céu; é dominar o espaço,
Num vôo poderoso e audaz da fantasia.

Fugir ao mundo vil, tão vil que, sem cansaço,
Engana, e menospreza, e zomba, e calunia;
Encastelar-se, enfim, no deslumbrante paço
De um sonho puro e bom, de paz e de alegria.

É ver no lago um mar, nas nuvens um castelo,
Na luz de um pirilampo um sol pequeno e belo;
É alçar, constantemente, o olhar ao céu profundo.

Sonhar é ter um grande ideal na inglória lida:
Tão grande que não cabe inteiro nesta vida,
Tão puro que não vive em plagas deste mundo.

(Helena Kolody)

sábado, 4 de julho de 2026

Notícias Ao Fim Da Tarde

Esta É A Frase (125)

A América nunca foi inocente. Mas foi, durante muito tempo, indispensável. A questão é saber se continuará a sê-lo como farol ou apenas como força. Se voltará a ser a nação que transforma poder em responsabilidade, ou se ficará reduzida a uma potência que confunde grandeza com intimidação.      (Miguel Baumgartner, Visão)

Hoje, porém, a América que vemos é outra. Ou, pelo menos, é outra a América que a Administração Trump tenta projetar para o mundo. Uma América zangada, fechada, desconfiada, punitiva. Uma América que transforma aliados em suspeitos, imigrantes em inimigos, diferenças em ameaça e fé religiosa em instrumento de combate político. Uma América onde a liberdade é muitas vezes invocada para negar a liberdade dos outros. Onde a bandeira, em vez de símbolo comum, passa a ser fronteira moral entre “nós” e “eles”.

Talvez seja essa a grande tragédia deste aniversário: a América chega aos 250 anos dividida entre o seu mito e o seu medo. Entre a república que quis fundar e o império emocional que hoje parece tentada a construir. Entre a promessa de liberdade universal e a tentação de uma identidade fechada, ressentida e vingativa.

Duzentos e cinquenta anos depois, talvez a pergunta mais difícil não seja: Que América temos? Talvez seja outra: Que América ainda pode a América querer ser?    (ler aqui texto na íntegra

Recado

 
desprende-se do teu olhar o magnífico
abandono dos animais adormecidos
recordo tuas mãos gretadas pelos sóis oblíquios destes dias
do corpo esquecido jorram resinas
retenho ainda os mais íntimos desejos de me confundir com a paisagem
ou de viver precariamente no outro lado do seu silêncio enrubescido

(Al Berto)

sexta-feira, 3 de julho de 2026

Notícias Ao Fim Da Tarde

Esta É A Frase (124)

Num país normal, a reforma da lei laboral teria naturalmente levado estes líderes empresariais a aparecer para defender ou criticar a iniciativa do Governo – ou uma mistura das duas. 

 (André Macedo, J Económico)

Os líderes empresariais andam escondidos. Ocultam o que pensam, parecem não existir sequer nos assuntos que dizem respeito às suas empresas e negócios. Por vezes, nem na apresentação de resultados anuais dão a cara: publicam um comunicado anódino e imprestável, cinzento e redondo, copy paste do texto do ano anterior, com ligeiríssimas e burocráticas alterações. 

Os atores desertaram, demitiram-se desta obrigação social e política. Profundidade de análise, originada pelos protagonistas e sustentada por exemplos que falam por si, isso há muito que deixou de haver. Alguém imagina esta pobreza com Belmiro de Azevedo e Alexandre Soares dos Santos ou o gestor Fernando Ulrich? Sem este contributo – legitimamente interessado – fica tudo mais difícil de fazer e mudar no país. Ganha o statu quo. Os novos líderes são frágeis (por escolha própria) e as suas empresas também o são. Não existem para além de Excel. Um dia vão perceber como se tornaram demasido vulneráveis – eles e os seus negócios.

O Artista


“O artista como artista sente menos do que os outros homens porque produz ao mesmo tempo que sente, e nesse caso há uma dualidade de espírito incompatível com o estar entregue a um sentimento.”

(Fernando Pessoa)

Nota: Nos seus ensaios sobre estética reunidos no Arquivo Pessoa, ele reflete profundamente sobre o papel do criador:
Fingimento poético: O artista intelectualiza a dor. Ele finge a dor que deveras sente.
Dualidade de espírito: Sentir e produzir ao mesmo tempo impede a entrega total ao sentimento.
Pensar o sentimento: Pessoa afirmava que sentia com o pensamento e que pensar era a sua forma de viver

quinta-feira, 2 de julho de 2026

Notícias Ao Fim Da Tarde

Esta É A Frase (123)

Como é possível dizer que um país enfraquecido militarmente, a enfrentar uma crise económica grave, com um regime detestado pela maioria da população, ganhou uma guerra? Por causa de Trump.  

(João Marques de Almeida (OBSR)

Trump cometeu enormes erros. A guerra foi mal planeada e mal executada. As forças armadas norte-americanas sabiam que o Irão iria tentar ocupar o Estreito de Ormuz (fazia parte dos planos de guerra americanos na região há décadas), mas nada foi feito para o controlar antes do Irão. Ninguém sabe se as forças armadas americanas teriam conseguido ou falhado porque não foi tentado. As negociações com os iranianos também foram de uma pobreza enorme. Há um mito que nos diz que Trump é um negociador hábil. Talvez seja de negócios de construção civil e hotelaria. De negociações diplomáticas, não é seguramente. Trump não tem paciência para ganhar guerras e vencer na diplomacia. É impulsivo, farta-se, distrai-se, e está sempre a mudar.

Esta coleção de erros ajudou a tendência de discutir a guerra no Irão olhando apenas para Trump e ignorando quase tudo o resto. Aqueles que tentaram ir além de Trump foram raras e honrosas excepções. Os erros de Trump, e a antipatia e mesmo o ódio que causa em muitos comentadores, contribuíram para a pobreza das análises. Há uma dialética evidente sobre a mediocridade da política de Trump e a mediocridade das análises sobre a guerra do Irão.

Ninguém sabe quais são as consequências da guerra para o futuro do Irão e do seu regime. Sabe-se que há divisões no regime e no país, que a autoridade do Estado funciona mal e que a economia está destruída, com inflação descontrolada, o aumento do desemprego e da pobreza. O futuro do Irão pode ir desde o fortalecimento do regime, a mudanças no interior do regime, ao fim do regime ou a uma guerra civil. Ninguém sabe. Nem os iranianos. Qualquer destes cenários terá consequências enormes para a região. Daqui a dois anos, deixaremos de falar sobre a política do Presidente Trump, mas as mudanças internas no Irão, as suas relações com os seus vizinhos e o conflito com Israel continuarão a dominar os debates sobre o Médio Oriente.   (ler texto na  íntegra)

Lembro-me Do Passado ...

 
Lembro-me do passado, não com melancolia ou saudade, mas com a sabedoria da maturidade que 
me faz projetar no presente aquilo que, sendo belo, não se perdeu.

(Lya Luft)