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domingo, 5 de julho de 2026

Sonhar


Sonhar é transportar-se em asas de ouro e aço
Aos páramos azuis da luz e da harmonia;
É ambicionar o céu; é dominar o espaço,
Num vôo poderoso e audaz da fantasia.

Fugir ao mundo vil, tão vil que, sem cansaço,
Engana, e menospreza, e zomba, e calunia;
Encastelar-se, enfim, no deslumbrante paço
De um sonho puro e bom, de paz e de alegria.

É ver no lago um mar, nas nuvens um castelo,
Na luz de um pirilampo um sol pequeno e belo;
É alçar, constantemente, o olhar ao céu profundo.

Sonhar é ter um grande ideal na inglória lida:
Tão grande que não cabe inteiro nesta vida,
Tão puro que não vive em plagas deste mundo.

(Helena Kolody)

sexta-feira, 3 de julho de 2026

O Artista


“O artista como artista sente menos do que os outros homens porque produz ao mesmo tempo que sente, e nesse caso há uma dualidade de espírito incompatível com o estar entregue a um sentimento.”

(Fernando Pessoa)

Nota: Nos seus ensaios sobre estética reunidos no Arquivo Pessoa, ele reflete profundamente sobre o papel do criador:
Fingimento poético: O artista intelectualiza a dor. Ele finge a dor que deveras sente.
Dualidade de espírito: Sentir e produzir ao mesmo tempo impede a entrega total ao sentimento.
Pensar o sentimento: Pessoa afirmava que sentia com o pensamento e que pensar era a sua forma de viver

quarta-feira, 24 de junho de 2026

Semântica


Não se enganem comigo:
se digo sul pode ser norte,
chego mas fico ausente,
o triste é também o belo,
procuro o que não se perde
nem se pode encontrar.

Buscar resposta nos livros
é esconder-se entre linhas.
Não creio no que se enxerga,
mas nisso que se disfarça
por mais que se tente olhar:
assim me tem seduzida.


Eis o jogo que eu persigo,
meu jeito de ser feliz,
o desafio que me embala:
sempre que escrevo "morte"
estou falando da vida.

(Lya Luft)

segunda-feira, 25 de maio de 2026

Poesia E Emoção


Poesia é quando uma emoção
encontra seu pensamento
e o pensamento encontra
palavras."

(Robert Frost)

sábado, 9 de maio de 2026

O Amor Cerra Olhos

 
O amor cerra os olhos,não para ver mas para absorver:a obscura transparência,a espessura das sombras ligeiras, a ondulação ardente: a alegria.Um cavalo corre na lenta velocidade das artérias.O amor conhece-se sobre a terra coroada:animal das águas,animal do fogo,animal do ar:a matéria é só uma,terrestre divina.  

"O amor cerra os olhos" é um verso marcante do poeta português António Ramos Rosa, sugerindo que o amor fecha os olhos não para ignorar, mas para absorver a essência, a transparência obscura e a intensidade da emoção, numa mistura de alegria e matéria. Esta perspetiva transforma o ato de "fechar os olhos" num processo de absorção e sentimento profundo. 

O fechar de olhos representa uma imersão na "obscura transparência" e na "ondulação ardente" do sentir.

sábado, 11 de abril de 2026

O Mundo Se Retirou De Nós


Hoje, não há mais mundo de que uma pessoa possa retirar-se.
O mundo se retirou de nós. E a solidão
é como um convento gigantesco em que,
na rua, nos transportes colectivos, na cama,
olhamos a vizinhança com a mesma convicção
com que os carmelitas descalços ao cruzarem-se no claustro
mutuamente se saudavam dizendo
que era preciso morrer.
Na dor, na alegria, no prazer, em tudo,
somos monges laicos cuja morte sobrevém
de uma qualquer maneira estúpida e sem graça.
E o nosso olhar de espanto não é o de termos sido
colhidos de surpresa antes de estar salva a alma,
mas o de ela estar salva, desde que o mundo
se retirou de nós. É o olhar de espanto do funcionário público
que descobre, ao contarem-lhe o tempo de aposentadoria,
que nunca figurara na folha de pagamento,
nem no quadro dos funcionários efectivos,
ou mesmo sequer nas listas do comissariado
do desemprego. Não tem direito sequer
à agonia que todavia sente como antigamente
era sentida a que justificava tudo:
o prazer de decidir entre duas coisas:
o ir ou o ficar, o estar ou o partir,
O ter-se uma alma que jogar e perder.

(Jorge de Sena)

quarta-feira, 25 de março de 2026

Adormece Teu Corpo Com A Música Da Vida

 

Adormece o teu corpo com a música da vida.
Encanta-te.
Esquece-te.
Tem por volúpia a dispersão.
Não queiras ser tu.
Quere ser a alma infinita de tudo.
Troca o teu curto sonho humano
Pelo sonho imortal.
O único.
Vence a miséria de ter medo.
Troca-te pelo Desconhecido.
Não vês, então, que ele é maior?
Não vês que ele não tem fim?
Não vês que ele és tu mesmo?
Tu que andas esquecido de ti?

(Cecilia Meireles)

sábado, 14 de março de 2026

Há Sem Dúvida Quem Ame O Infinito,

Há sem dúvida quem deseje o impossível,
Há sem dúvida quem não queira nada
Três tipos de idealistas, e eu nenhum deles:
Porque eu amo infinitamente o finito,
Porque eu desejo impossivelmente o possível,
Porque quero tudo, ou um pouco mais, se puder ser,
Ou até se não puder ser…

(Alvaro de Campos)

quinta-feira, 12 de março de 2026

Desejos Vãos


Eu queria ser o Mar de altivo porte
Que ri e canta, a vastidão imensa!
Eu queria ser a Pedra que não pensa,
A pedra do caminho, rude e forte!

Eu queria ser o Sol, a luz imensa,
O bem do que é humilde e não tem sorte!
Eu queria ser a árvore tosca e densa
Que ri do mundo vão e até a morte!

Mas o Mar também chora de tristeza ...
As árvores também, como quem reza,
Abrem, aos Céus, os braços, como um crente!

E o Sol altivo e forte, ao fim de um dia,
Tem lágrimas de sangue na agonia!
E as Pedras ... essas ... pisa-as toda a gente! ...

(Florbela Espanca)

quarta-feira, 14 de janeiro de 2026

Quando Está Frio No Tempo Do Frio


Quando está frio no tempo do frio, para mim é como se estivesse agradável,
Porque para o meu ser adequado à existência das cousas
O natural é o agradável só por ser natural.

Aceito as dificuldades da vida porque são o destino,
Como aceito o frio excessivo no alto do Inverno —
Calmamente, sem me queixar, como quem meramente aceita,
E encontra uma alegria no fato de aceitar —
No fato sublimemente científico e difícil de aceitar o natural inevitável.

Que são para mim as doenças que tenho e o mal que me acontece
Senão o Inverno da minha pessoa e da minha vida?
O Inverno irregular, cujas leis de aparecimento desconheço,
Mas que existe para mim em virtude da mesma fatalidade sublime,
Da mesma inevitável exterioridade a mim,
Que o calor da terra no alto do Verão
E o frio da terra no cimo do Inverno.

Aceito por personalidade.
Nasci sujeito como os outros a erros e a defeitos,
Mas nunca ao erro de querer compreender demais,
Nunca ao erro de querer compreender só corri a inteligência,
Nunca ao defeito de exigir do Mundo
Que fosse qualquer cousa que não fosse o Mundo.

Alberto Caeiro, in "Poemas Inconjuntos"

Nota: O poema reflete a filosofia de Caeiro de viver o presente e o natural sem questionamentos excessivos, vendo a beleza na simples existência.

segunda-feira, 6 de outubro de 2025

O Sol Nasce ...


O sol nasce,
os pássaros cantam,
mais um dia que se inicia.
Respire, pense,
agradeça, inspire-se!
Tenha um ótimo dia.

sábado, 30 de agosto de 2025

O Canteiro Está Molhado


O canteiro está molhado.
Trarei flores do canteiro,
Para cobrir o teu sono.
Dorme, dorme, a chuva desce,
Molha as flores do canteiro.
Noite molhada de chuva,
Sem vento, nem ventania,
Noite de mar e lembranças..."

(Cecília de Carvalho Meireles)

sexta-feira, 8 de agosto de 2025

Certeza


Se é real a luz branca
desta lâmpada, real
a mão que escreve, são reais
os olhos que olham o escrito?

Duma palavra à outra
o que digo desvanece-se.
Sei que estou vivo
entre dois parênteses.

(Octavio Paz, em "Dias Hábeis")

segunda-feira, 7 de julho de 2025

Saudades Pagãs I


Visões! sonhos antigos! Quando a Terra,
Na inocência primeira de seus anos,
Entre flores dormia... e era seu berço
O seio de mil deuses! Quando a vida
No coração dos homens sem esforço,
Se abria como um lótus, todo cheio
Dos raios do luar e dos segredos
Do vaporoso espírito das noites!

Quando um tronco era peito comovido,
E a montanha um Áugur, e a rocha oráculo:
E não se achava um só bago de areia
Que não estremecesse e não sentisse
Agitar-se-lhe dentro a alma confusa
Quando os Orfeus passavam, silenciosos,
Por entre os arvoredos, meditando!

Saía então da Terra um grande espírito:
Havia em tudo uma expressão profunda:
Nem era muda a vastidão do mundo.
Como um canto que fere as cordas todas
Duma harpa sonora, uma mesma alma
Através do Universo ia acordando,
Em peito, árvore, pedra, e céu e onda,
As mil notas, diversas mas cadentes,
Duma mesma harmonia ‑ o hino da Vida!

Era a cidade ideal da Natureza!
Seu povo, a criação; seu templo, o espaço;
E muralhas em volta, circundando-a,
Dum lado ao outro os livres horizontes!
Era a cidade ideal! a Lei eterna
Banhava-a sempre numa aurora imensa,
Quando um povo de deuses, radiante
De mocidade e brilho, caminhava
Por entre as multidões ‑ e o solo heroico,
Teu solo sacrossanto, ó Grécia antiga,
Como um sublime palco, sob os passos
Dos atores divinos ressoava!

(Antero de Quental)

domingo, 8 de junho de 2025

Quando Aqui Não Estás ...

Quando aqui não estás
o que nos rodeou põe-se a morrer
a janela que abre para o mar
continua fechada só nos sonhos
me ergo
abro-a
deixo a frescura e a força da manhã
escorrem pelos dedos prisioneiros
da tristeza
acordo
para a cegante claridade das ondas
um rosto desenvolve-se nítido
além
rasando o sal da imensa ausência
uma voz
quero morrer
com uma overdose de beleza
e num sussurro o corpo apaziguado
perscruta esse coração
esse
solitário caçador

(Al Berto)

sábado, 1 de fevereiro de 2025

Odisseia


E passam as horas, desfilam os dias, meses, anos...

Sombras e luzes esculpindo vagarosamente as nossas histórias, detalhando gestos, atos, sonhos, pensamentos, ambições, desenganos...

E assim formaremos o que denominamos como sendo nosso viver. A cada segundo seremos novas pessoas, sem que disso nos apercebamos, pois acumularemos mais e mais experiências e com elas, novas formas de ver e agir.

Tornarmo-nos melhores para alguns, piores para outros, iguais para nós mesmos.

Seremos apenas parte da estrutura que definirá a odisseia humana no Planeta Terra.

E transformamos as emoções em lições únicas, partes de um aprendizado sem fim, definindo nossa capacidade de amar e odiar.

E desta forma sonharemos e realizaremos. Sonharemos e nos decepcionaremos.

E partiremos deixando lembranças e talvez algum legado do pouco que fomos, 
mas levando tudo o que conseguimos entender e aprender.

(JRUnder)

sexta-feira, 10 de janeiro de 2025

Gosto Da Intensidade ...




Simplesmente gosto da intensidade...
Abomino a mesmice...
As ideias curtas...
Não gosto de quem não se permite viajar...
Ainda que em sonhos

(Adyforever)

terça-feira, 7 de janeiro de 2025

Das Pedras


 Ajuntei todas as pedras
que vieram sobre mim.
Levantei uma escada muito alta
e no alto subi.
Teci um tapete floreado
e no sonho me perdi.
Uma estrada,
um leito,
uma casa,
um companheiro.
Tudo de pedra.
Entre pedras cresceu a minha poesia.
Minha vida...
quebrando pedras
e plantando flores.

(Cora Coralina)

segunda-feira, 23 de dezembro de 2024

É Natal!

Tempo de aprender e agir com benevolência.
Demonstração de fraternidade...
Natal! É dedicação
Pensar nas pessoas em redor e vencer o próprio egoísmo! 
De reunião familiar!
De pensar e também de orar!
Retribuir as felicidades
Matar as saudades...
Busca pela essência...
Sincera caridade
Respeito pela posteridade...
Natal é vida, é o reflexar da Alma
É o cantar dos corações amigos
É a bondade, salutar e familiar
É a benção do Senhor
É o tilintar dos sinos
É o Deus Menino...
É Natal feliz
Feliz Natal

(Adaptação)