Pesquisar neste blogue

Mostrar mensagens com a etiqueta Poema. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Poema. Mostrar todas as mensagens

sábado, 4 de julho de 2026

Recado

 
desprende-se do teu olhar o magnífico
abandono dos animais adormecidos
recordo tuas mãos gretadas pelos sóis oblíquios destes dias
do corpo esquecido jorram resinas
retenho ainda os mais íntimos desejos de me confundir com a paisagem
ou de viver precariamente no outro lado do seu silêncio enrubescido

(Al Berto)

terça-feira, 30 de junho de 2026

Vencer O Medo

 
A coragem está um passo à frente do medo.
E a Fé dois passos diante dos dois, com Ela 
abraçamos a coragem e vencemos o medo.

Carlos Andradas  (Adaptação ao Poema de Colliman Young) 

segunda-feira, 29 de junho de 2026

Hora

Sinto que hoje novamente embarco
Para as grandes aventuras,
Passam no ar palavras obscuras
E o meu desejo canta --- por isso marco
Nos meus sentidos a imagem desta hora.

Sonoro e profundo
Aquele mundo
Que eu sonhara e perdera
Espera
O peso dos meus gestos.

E dormem mil gestos nos meus dedos.

Desligadas dos círculos funestos
Das mentiras alheias,
Finalmente solitárias,
As minhas mãos estão cheias
De expectativa e de segredos
Como os negros arvoredos
Que baloiçam na noite murmurando.

Ao longe por mim oiço chamando
A voz das coisas que eu sei amar.

E de novo caminho para o mar.

(Sophia de Mello Breyner Andresen)

domingo, 28 de junho de 2026

Incenso Fosse Música


isso de querer ser
exatamente aquilo
que a gente é
ainda vai
nos levar além

(Paulo Leminski)

O ser humano vive em busca de satisfazer seus desejos, e se aperfeiçoar. É essa característica que nos impulsiona a sempre buscar algo que nos "complete".

Mesmo sabendo que a completude é inalcançável, continuamos nessa procura e assim nos tornamos pessoas mais íntegras, interessantes e curiosas.

sábado, 27 de junho de 2026

Sossega, Coração! Não Desesperes!


 Sossega coração! Não desesperes!
Talvez um dia, para além dos dias,
encontres o que queres porque o queres.
Então, livre de falsas nostalgias,
atingirás a perfeição dos seres.

Sossega, coração, contudo! Dorme!
O sossego não quer razão nem causa.
Quer só a noite plácida e enorme.
A grande, universal, solene pausa
antes que tudo em tudo se transforme.

(Fernando Pessoa)

sexta-feira, 26 de junho de 2026

Longe


Às vezes,
tudo é tão longe em mim...
Meu viver parece um história
que alguém sonhou
há muito tempo,
num país distante

(Helena Kolody)

Nota : Os versos citados pertencem ao poema "Longe", de Helena Kolody, que reflete sobre a introspecção e a sensação de sonho.

terça-feira, 23 de junho de 2026

Na Hora Em Que A Terra Dorme


Na hora em que a terra dorme
enrolada em frios véus,
eu ouço uma reza enorme
enchendo o abismo dos céus

(Castro Alves)

segunda-feira, 22 de junho de 2026

Um Poema


Não tenhas medo, ouve:  É um poema
Um misto de oração e de feitiço...
Sem qualquer compromisso,
Ouve-o atentamente,
De coração lavado.
Poderás decorá-lo
E rezá-lo
Ao deitar,
Ao levantar,
Ou nas restantes horas de tristeza
Na segura certeza
De que mal não te faz.
E pode acontecer que te dê paz...  

(Miguel Torga)

domingo, 21 de junho de 2026

Entre O Luar E A Paisagem


 Entre o luar e a folhagem,
Entre o sossego e o arvoredo,
Entre o ser noite e haver aragem
Passa um segredo.
Segue-o minha alma na passagem.

Tênue lembrança ou saudade,
Princípio ou fim do que não foi,
Não tem lugar, não tem verdade,
Atrai e doi.
Segue-o meu ser em liberdade.

Vazio encanto ébrio de si,
Tristeza ou alegria o traz?
O que sou dele a quem sorri?
Não é nem faz,
Só de segui-lo me perdi.

(Fernando Pessoa)

sexta-feira, 19 de junho de 2026

Momento


Enquanto eu fiquei alegre,
permaneceram um bule azul com um descascado no bico,
uma garrafa de pimenta pelo meio,
um latido e um céu limpidíssimo
com recém-feitas estrelas.
Resistiram nos seu lugares, em seus ofícios,
constituindo o mundo pra mim, anteparo
para o que foi um acometimento:
súbito é bom ter um corpo pra rir
e sacudir a cabeça. A vida é mais tempo
alegre do que triste. Melhor é ser.

(Adélia Prado)

O poema acima trata da transitoriedade do tempo, do correr da vida e de como se deve escolher leva-la.

Para ilustrar as várias fases da existência, o eu-lírico faz uso de imagens simbólicas como o bule azul descascado e a garrafa de pimenta pelo meio. As duas imagens sublinham o processo de desgaste e uso inerente à vida.

Alinhado com os objetos estão signos aleatórios como o latido de um cão e um céu limpo, itens que ocupam espaço no nosso cotidiano repetitivo.

Após essa justaposição de matérias e afetos, o eu-lírico conclui o poema de uma maneira positiva e com um tom otimista, destacando o corpo que ri e a alegria que vence a tristeza.


terça-feira, 16 de junho de 2026

Inflama-me, Poente : Faz-me Perfume E Chama


Inflama-me, poente: faz-me perfume e chama;
que o meu coração seja igual a ti, poente!
descobre em mim o eterno, o que arde, o que ama, ...
e o vento do esquecimento arraste o que é doente!

((Juan Ramón Jiménez)

segunda-feira, 15 de junho de 2026

Variações Sobre O Jogador Do Pião


Faz rodar o pião redondo tudo em volta
Atira a primavera e recupera o verão
Terras e tempos, tudo assume esse pião
que rodopia e rouba o chão à folha solta

Rasga o espaço num gesto ríspido de vida
reergue o braço a prumo, arrisca - nessa roda
possível da maçã ao muro - a infância toda
Tudo é redondo e torna ao ponto de partida

O sol a sombra a cal os pássaros os pés
o adro a pedra o frio os plátanos... Quem és?
Voltas? rodas? regressas? rodopias? - Nada

Mão do breve pião, levanta ao céu a enxada:
que a vida arrebatada aos demais olhos seja
ao comprido coberta pelo chão da igreja

(Ruy Belo)

O tema do pião serve como uma reflexão poética e filosófica sobre a passagem do tempo, a memória, a infância e o efémero da vida humana. 

O Movimento do Pião: O movimento circular e rotativo do pião simboliza a dinâmica da própria existência: o rodar constante que suspende o tempo e, simultaneamente, cria a ilusão de um eterno regresso. 

A Estrutura Musical: Ruy Belo, um confesso admirador da música, compõe os poemas com uma forte cadência rítmica. A repetição e a variação operam como um "jogo de linguagem" que imita técnicas de composição musical, desafiando o leitor através de reflexões sobre a morte e a eternidade. 

A Nostalgia e a Infância: O poema usa o pião para resgatar imagens do passado e da infância, tentando encontrar ordem no caos das coisas do mundo. 

Um dos excertos mais conhecidos que ilustra esta dinâmica poética reflete exatamente a metáfora de como tudo gira em torno deste eixo.

domingo, 14 de junho de 2026

Da Lâmpada Nocturna

 

Da lâmpada nocturna
A chama estremece
E o quarto alto ondeia.

Os deuses concedem
Aos seus calmos crentes
Que nunca lhes trema
A chama da vida

Perturbando o aspecto
Do que está em roda,
Mas firme e esguiada
Como preciosa
E antiga pedra,
Guarde a sua calma
Beleza contínua.

(Ricardo Reis)

Nota: O poema utiliza a imagem serena de uma chama de candeeiro para metaforizar a estabilidade, a aceitação do destino e a moderação face às incertezas da vida.

A Metáfora da Chama: A chama da lâmpada, que "estremece" mas não se apaga, representa a vida e o estado de espírito ideal para o ser humano.

A Serenidade Clássica: O autor evoca os deuses para pedir que a "chama da vida" permaneça firme e vertical, tal como uma "antiga pedra". Evidencia-se aqui o estoicismo característico da poesia de Reis, que procura a harmonia e a calma através da razão.

Contentamento com o Destino: O poema expressa o desejo de viver com equilíbrio e de evitar perturbações ("nunca lhes trema... perturbando o aspecto"

sexta-feira, 12 de junho de 2026

Sou Composta Por Urgências


Sou composta por urgências:
minhas alegrias são intensas;
minhas tristezas, absolutas.
Entupo-me de ausências,
Esvazio-me de excessos.
Eu não caibo no estreito,
eu só vivo nos extremos
Pouco não me serve,
metades nunca foram meu forte!
Todos os grandes e pequenos momentos,
feitos com amor e com carinho,
são pra mim recordações eternas.
Palavras até me conquistam temporariamente…
Mas atitudes me perdem ou me ganham para sempre.
Suponho que me entender
não é uma questão de inteligência
e sim de sentir, de entrar em contato….

(Clarice Lispector) 

quinta-feira, 11 de junho de 2026

Talvez ...


 
Talvez não ser,
é ser sem que tu sejas,
sem que vás cortando
o meio dia com uma
flor azul,
sem que caminhes mais tarde
pela névoa e pelos tijolos,
sem essa luz que levas na mão
que, talvez, outros não verão dourada,
que talvez ninguém
soube que crescia
como a origem vermelha da rosa,
sem que sejas, enfim,
sem que viesses brusca, incitante
conhecer a minha vida,
rajada de roseira,
trigo do vento,

E desde então, sou porque tu és
E desde então és
sou e somos...
E por amor
Serei... Serás...Seremos..."

(Pablo Neruda)

quarta-feira, 10 de junho de 2026

Deixa Passar O Vento ...


Deixa passar o vento
Sem lhe perguntar nada.
Seu sentido é apenas
Ser o vento que passa…

Consegui que desta hora
O sacrifical fumo
Subisse até ao Olimpo.
E escrevi estes versos
Pra que os deuses voltassem.

(Ricardo Reis)

domingo, 7 de junho de 2026

Amostra Sem Valor


Eu sei que o meu desespero não interessa a ninguém.
Cada um tem o seu, pessoal e intransmissível:
com ele se entretém
e se julga intangível.

Eu sei que a Humanidade é mais gente do que eu,
sei que o Mundo é maior do que o bairro onde habito,
que o respirar de um só, mesmo que seja o meu,
não pesa num total que tende para infinito.

Eu sei que as dimensões impiedosos da Vida
ignoram todo o homem, dissolvem-no, e, contudo,
nesta insignificância, gratuita e desvalida,
Universo sou eu, com nebulosas e tudo.

(António Gedeão)

quarta-feira, 3 de junho de 2026

Dia De Hoje

 

Ó dia de hoje, ó dia de horas claras
Florindo nas ondas, cantando nas florestas,
No teu ar brilham transparentes festas
E o fantasma das maravilhas raras
Visita, uma por uma, as tuas horas
Em que há por vezes súbitas demoras
Plenas como as pausas dum verso.

Ó dia de hoje, ó dia de horas leves
Bailando na doçura
E na amargura
De serem perfeitas e de serem breves.

(Sophia de Mello Breyner Andresen)

segunda-feira, 1 de junho de 2026

O Rio E O Oceano

 
Diz-se que, mesmo antes de um rio cair no oceano, ele treme de medo.
Olha para trás, para toda a jornada, os cumes das montanhas,
o longo caminho sinuoso através das florestas, através dos
povoados, e vê à sua frente um oceano tão vasto que entrar
nele nada mais é do que desaparecer para sempre.
Mas não há outra maneira.
O rio não pode voltar.
Ninguém pode voltar.
Voltar é impossível na existência. Você
pode apenas ir em frente.
O rio precisa se arriscar e entrar no oceano.
E somente quando ele entra no oceano é que o medo
desaparece.
Porque apenas então o rio saberá que não se trata de
desaparecer no oceano, mas tornar-se oceano.
Por um lado é desaparecimento e por outro lado é
renascimento.

Então, não se preocupe. As coisas estão acontecendo perfeitamente bem para você.

(Osho)

sábado, 30 de maio de 2026

Humildade

 

Mostra um pouco de amor pelas coisas:
pelo musgo que acalma a tua fadiga,
pela fonte que a tua sede mitiga,
pelas pedras e pelas rosas.
Em tudo encontrarás uma beleza
virginal, um prazer desconhecido...
Acerta o ritmo do batimento
do teu coração com o coração da Natureza.
Recebe como um santo sacramento
o perfume e a luz que te dá o vento...
Quem sabe se o seu amor nele te envia
aquela que a vida transformou...!
E sê humilde, e lembra-te que um dia
te há-de cobrir a terra que pisaste!

(Francisco Villaespesa)