Marcelo Rebelo (...) apesar da sagacidade e da inteligência leu mal os sinais, (...) ao achar que a festa e a proximidade bastavam para que a maioria dos portugueses esquecesse os sacrifícios do período da troika. Ignorou (ou não deu importância ao facto) que a jogada de António Costa para ser primeiro-ministro, apesar de constitucionalmente legítima, deixou feridas profundas e comportou um custo que o sistema partidário ainda hoje está a pagar.
Quando Portugal necessitava de equilíbrio e de serenidade, Marcelo e Costa deram-nos festa, exaltação e azáfama. Confundiram agitação com acção e, como geralmente acontece nessas situações, pouco ou nada se fez. (...)
Foi neste momento que o segundo mandato de Marcelo se perdeu. De um presidente omnipresente e tutelar, Marcelo viu-se transformado num chefe de estado sem propósito. As selfies e os afectos (feitos para ganhar popularidade e se tornar imprescindível ao governo) perderam razão de ser e, sem brilho, banalizaram-se.
Nem sequer as vitórias de Luís Montenegro sem maioria absoluta lhe serviram de alento. Com experiência suficiente para saber ao que ia, o novo primeiro-ministro teve o cuidado de se proteger do presidente e de o afastar das decisões mais importantes. Tão assim foi que, pela primeira vez na sua vida, Marcelo deve ter sabido pelos jornais o que se decidia em São Bento. Uma ironia com graça que nos faz sorrir com a mesma complacência com que o vemos partir.

Sem comentários:
Enviar um comentário