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sábado, 17 de janeiro de 2026

Notícias Ao Fim Da Tarde


Talvez O Poder Populista Funcione Assim




Talvez o poder populista funcione exatamente assim – não como argumento, mas como flauta. Não convence, encanta; não explica, ritma. Promete ordem onde há medo, pertença onde há exclusão, destino onde há dispersão. Como os ratos de Hamelin, os corpos seguem porque o som aparenta organizar o caos interior, porque a cadência alivia a angústia de decidir sozinho. As eleições, nesse sentido, tornam-se menos um exercício de escolha do que um movimento coreografado: avança-se ao som que mais claramente impõe o passo, mesmo quando esse passo conduz ao rio. O flautista não empurra ninguém – limita-se a tocar. E é precisamente isso que o torna perigoso: ele sabe que a obediência nasce do prazer, não da força; da escuta, não da violência.

Quando o som cessa – porque ele cessa sempre – será já tarde: os que o seguiram confundiram vontade com ritmo, escolha com marcha, liberdade com o simples alívio de não ter de resistir às sinistras musiques d’un autre monde.   (Paulo Ramos, OBSR)