Tenho assaz conservado o rosto enxuto
Contra as iras do Fado omnipotente;
Assaz contigo, ó Sócrates, na mente,
À dor neguei das queixas o tributo.
Sinto engelhar-se da constância o fruto,
Cai no meu coração nova semente;
Já me não vale um ânimo inocente;
Gritos da Natureza, eu vos escuto!
Jazer mudo entre as garras da Amargura,
D'alma estóica aspirar à vã grandeza,
Quando orgulho não for, será loucura.
No espírito maior sempre há fraqueza,
E, abafada no horror da desventura,
Cede a Filosofia à Natureza.
(Bocage)
Nota: "Cede a Filosofia à Natureza" reflete a fragilidade humana perante a dor e a desventura. O eu lírico assume que, apesar de tentar manter uma postura estóica e racional (filosofia/Sócrates), sucumbe aos sentimentos e gritos da própria natureza humana. Temática: A superação da razão (filosofia) pelas emoções e sofrimento físico/emocional (natureza).
Contexto: O poema demonstra a aceitação da fraqueza interior quando confrontado com a "desventura".
