Numa sociedade radicalizada, em que as emoções valem mais do que a razão (que além de não existir é opressiva), o equilíbrio só pode significar má-fé ou parvoíce, pois o bom senso é um contrassenso (Paulo Nogueira, OBSR)
Segundo Churchill, “quem não é progressista aos 25 anos, não tem coração. E quem não é conservador aos 35, não tem cérebro”. A dicotomia direita/esquerda, até certo ponto natural (nossos pés e mãos, canhotos e destros), remonta à Assembleia dos Estados Gerais de 1789, quando, no início da Revolução Francesa, a nobreza sentou-se à direita, e o Terceiro Estado à esquerda (sim, a burguesia já foi a esquerda, e voltou a sê-lo com os wokes radicais chics).
A polarização reina até individualmente, com os nossos hemisférios cerebrais a puxarem cada um a brasa para a sua sardinha, com os seus pontos cegos e vieses de confirmação. É mais fácil aceitar o ponto de vista do hemisfério esquerdo, enunciável sem ambiguidade e que simplesmente se opõe à perspectiva do direito, do que perfilhar a opinião deste, multifacetada e sutil, e inerentemente aberta à perspectiva do esquerdo. Na Itália, chamam à esquerda “sinistra” – bom, eles lá sabem. Mas alegam os neurologistas que precisamos de ambos os hemisférios como de pão para a boca.
Como notou a franco-hispânica Anais Nin, “não vemos os outros como eles são: vemo-los como nós somos.” Daí a tentação totalitária do conforto unidimensional: o “centralismo democrático” de Lenine, em que tudo o que não era proibido, era obrigatório. Hoje habitamos um mundo que permite tudo, mas não perdoa nada (Nelson Mandela já lá vai). A internet revolucionou a imprensa com a perda dos monopólios publicitários nos mercados jornalísticos, obrigados a correr atrás dos likes nas redes sociais, cujos algoritmos exploram as nossas lealdades tribais.
Assim, o centro político – onde com sorte às vezes pulsavam a clemência, a flexibilidade e o sentido de humor – tende a mirrar por causa da polarização centrífuga. O debate reduz-se a impropérios vociferados por todos os lados das barricadas, com a profundidade de um dedal. Pregamos para convertidos idólatras, e bloqueamos os iconoclastas.

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