Atuamos à escala do planeta com uma consciência ainda calibrada para a tribo, para o trimestre. Temos uma arquitetura de consciência que não evoluiu ao ritmo dos instrumentos que criou. Há uma ferida que a espécie nunca tratou. Não por falta de inteligência, mas porque a ferida é a própria espécie. (...)
Apenas o Homo sapiens acordou um dia com a consciência de si próprio e ficou paralisado perante a pergunta que esse acordar gerou.
E a resposta que deu a essa pergunta foi sempre a mesma, sob mil formas diferentes: inventou um sentido exterior a si próprio. Um deus, uma nação, uma classe, um progresso, uma raça, um mercado. Qualquer coisa que justificasse a existência individual como parte de algo maior e, portanto, menos aterrador.
As tradições espirituais perceberam isto e propuseram a redenção, a iluminação, a salvação, como saída do paradoxo. A ciência propôs a razão e a educação. A filosofia política propôs as instituições e os direitos. Todas falharam não porque fossem erradas na intenção, mas porque tentaram resolver o paradoxo em vez de o integrar. E o paradoxo não se resolve. Habita-se.A pergunta “quem somos?” não tem resposta. Por este caminho em que seguimos, nunca terá. Mas talvez a urgência de a fazer nunca tenha sido tão pertinente como agora. Porque o que está em jogo não é uma civilização. É a continuidade do único ser conhecido no universo que se perguntou o que era. E que ainda não sabe a resposta, porque não há uma resposta a obter, mas sim a construir.
Será que teremos tempo e discernimento para a concretizar talvez a urgência de a fazer nunca tenha sido tão pertinente como agora. Porque o que está em jogo não é uma civilização. É a continuidade do único ser conhecido no universo que se perguntou o que era. E que ainda não sabe a resposta, porque não há uma resposta a obter, mas (...)
(tópicos do texto de Antero de Carvalho, OBSR)

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