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terça-feira, 31 de março de 2026

Notícias Ao Fim Da Tarde

Assim Acontece

Portugal não tem um problema de falta de casas. Tem um problema de falta de confiança. Mas tem também algo mais profundo e raramente assumido: um sistema de incentivos que beneficia diretamente do mau funcionamento do mercado de arrendamento. Enquanto este bloqueio persistir, continuaremos a empurrar gerações inteiras para o endividamento como única forma de acesso à habitação.   

Sem preços livres, não há sinal económico; sem justiça célere e a funcionar, não há confiança, e sem confiança, não há mercado. Proteger a propriedade, garantir contratos e permitir o funcionamento do mercado não é apenas uma opção económica: é uma exigência ética. Recuperar a confiança é o primeiro passo. E sem confiança, nenhuma reforma será suficiente.

Um mercado de arrendamento historicamente disfuncional em que décadas de congelamento de rendas, legislação enviesada e uma justiça lenta criaram um ambiente de desconfiança tal que faz com que o proprietário não se fie do sistema, que o inquilino cumpra, que o imóvel seja preservado e acima de tudo, não acredita que a justiça funcione em tempo útil quando há incumprimento e a razão impõe-se à emoção: prefere não arriscar por isso não arrenda.

A solução não exige complexidade, mas sim clareza e coragem política.
Segundo, é indispensável restaurar a credibilidade do contrato. Isso implica tribunais especializados, decisões rápidas e execução efetiva. Um princípio simples deve prevalecer: quem não paga, sai; quem destrói, paga e quem, de forma temporária, não pode, tem tempo para reorganizar a sua vida, com urgência e dignidade.
A evidência recente mostra que, quando a confiança regressa, a oferta responde rapidamente e os preços ajustam-se. Não há razão estrutural para que Portugal não consiga replicar este efeito.

O verdadeiro dilema nacional é continuar a sustentar um modelo que empurra cidadãos para o endividamento ao invés de libertar um mercado que pode funcionar com regras claras.

O Estado, quando interfere de forma arbitrária, tentando impor uma justiça social desligada da realidade económica, destrói os incentivos, reduz a oferta e agrava precisamente os problemas que pretende ver resolvidos.    (tópicos do texto de Jorge Coutinho Moreira, OBSR

Subia A Lua Leve


Um luar fluido e veludoso como um bálsamo
Ungia a noite voluptuosa e ardente.
A sua luz era tão branca que tornava o céu diáfano...
Subia a lua leve como o pensamento.
Eu dialogava com o silêncio... Uma toada rústica
De flautas e violões transportou-me à saudade.
E, abstrato de mim mesmo, eu te bendisse, ó música,
Que da tristeza de pensar me libertavas!

(Da Costa e Silva) 

segunda-feira, 30 de março de 2026

Notícias Ao Fim Da Tarde

"Quem Somos" Ainda Sem Resposta

Atuamos à escala do planeta com uma consciência ainda calibrada para a tribo, para o trimestre. Temos uma arquitetura de consciência que não evoluiu ao ritmo dos instrumentos que criou. Há uma ferida que a espécie nunca tratou. Não por falta de inteligência, mas porque a ferida é a própria espécie. (...)

Apenas o Homo sapiens acordou um dia com a consciência de si próprio e ficou paralisado perante a pergunta que esse acordar gerou.

E a resposta que deu a essa pergunta foi sempre a mesma, sob mil formas diferentes: inventou um sentido exterior a si próprio. Um deus, uma nação, uma classe, um progresso, uma raça, um mercado. Qualquer coisa que justificasse a existência individual como parte de algo maior e, portanto, menos aterrador.

As tradições espirituais perceberam isto e propuseram a redenção, a iluminação, a salvação, como saída do paradoxo. A ciência propôs a razão e a educação. A filosofia política propôs as instituições e os direitos. Todas falharam não porque fossem erradas na intenção, mas porque tentaram resolver o paradoxo em vez de o integrar. E o paradoxo não se resolve. Habita-se.

A pergunta “quem somos?” não tem resposta. Por este caminho em que seguimos, nunca terá. Mas talvez a urgência de a fazer nunca tenha sido tão pertinente como agora. Porque o que está em jogo não é uma civilização. É a continuidade do único ser conhecido no universo que se perguntou o que era. E que ainda não sabe a resposta, porque não há uma resposta a obter, mas sim a construir.

Será que teremos tempo e discernimento para a concretizar talvez a urgência de a fazer nunca tenha sido tão pertinente como agora. Porque o que está em jogo não é uma civilização. É a continuidade do único ser conhecido no universo que se perguntou o que era. E que ainda não sabe a resposta, porque não há uma resposta a obter, mas (...)   

(tópicos do texto de Antero de Carvalho, OBSR)

Escrita


Aqui na minha frente a folha branca do papel, à espera; dentro de mim esta angústia, à espera: e nada escrevo. A vida não é para se escrever. A vida — esta intimidade profunda, este ser sem remédio, esta noite de pesadelo que nem se chega a saber ao certo porque foi assim — é para se viver, não é para se fazer dela literatura.    (Miguel Torga)

domingo, 29 de março de 2026

Notícias Ao Fim Da Tarde

Assim Acontece

 O conceito de ordem internacional encontra-se em profunda mutação. Já não se trata de preservar um equilíbrio herdado, mas de compreender uma recomposição em curso, marcada pela emergência de múltiplos poderes.   (Adalberto Campos Fernandes, SOL)

Aquilo que outrora funcionava como referência geoestratégica degradou-se em mera retórica e em declarações que já não vinculam nem orientam. Como sublinhava Kissinger, a estabilidade mundial não emerge de intenções proclamadas, mas de equilíbrios reconhecidos e de uma liderança capaz de os sustentar com continuidade. O que hoje se observa é precisamente o inverso: a erosão da previsibilidade, o desvanecimento dos referenciais e a hesitação onde antes existia direção.

Porque, no fim, a inteligência política mede-se não pela capacidade de vencer batalhas internas, mas pela capacidade de aprender — e evoluir. E é precisamente isso que, hoje, parece faltar ao Partido Socialista. 

(Álvaro Rocha, OBSR)

Inteligente é aquele que aprende com os próprios erros. Mas mais inteligente ainda é aquele que consegue aprender com os erros dos outros, ou, melhor ainda, com os ensinamentos dos mais sábios. Infelizmente, quando olhamos para o comportamento recente do Partido Socialista, parece que nenhuma destas formas de inteligência está presente.

O primeiro exemplo é particularmente elucidativo. O partido entrou num processo interno de divisão quase autofágica, com várias figuras a manifestarem-se e a posicionarem-se para uma candidatura. Em vez disso, prevalece (...)                                                                                                                           

Tédio

 
Fujo de quem me quer e quero quem de mim foge
A rotina me entedia, o desafio me fascina, 
o improvável me chama.

(daliahewia)

Usar muito a cabeça não é pensar com inteligência
É possível que tenha uma vida muito ocupada, usando a sua mente para resolver problemas e criando soluções para o dia a dia, mas provavelmente já se sentiu agindo sem inteligência não é mesmo?

Essa sensação pode ser facilmente compreendida quando analisada sob o ponto de vista da neurociência, segundo Livia Ciacci, neurocientista e Mestre em Sistemas Neuronais do Supera – Ginastica para o cérebro.

O primeiro ponto para entendermos o porquê nos sentimos assim é entender que a inteligência como a entendemos hoje é um fator que depende de algumas variantes, veja:

O primeiro passo, que estaria escrito no manual de instruções do cérebro, é respeitar as limitações biológicas e ajudá-lo a ficar saudável”, lembrou a cientista.

Podemos entender a inteligência principalmente como a habilidade de usar nossos sentidos e pensamentos para resolver problemas, o que não é simplesmente receber um estímulo do ambiente e reagir a ele, segundo a especialista. “Ser inteligente na espécie humana é saber analisar dados racionalmente – adotando o tipo de pensamento metódico – e ao mesmo tempo perceber que pode mudar o ponto de vista e inverter totalmente a estratégia – adotando o tipo de pensamento flexível”, lembrou.

Por que usar muito a cabeça não é pensar com inteligência
É possível que tenha uma vida muito ocupada, usando sua mente para resolver problemas e criando soluções para o dia a dia, mas provavelmente já se sentiu agindo sem inteligência não é mesmo?
Essa sensação pode ser facilmente compreendida quando analisada sob o ponto de vista da neurociência, segundo Livia Ciacci, neurocientista e Mestre em Sistemas Neuronais do Supera – Ginastica para o cérebro.
O primeiro ponto para entendermos o porquê de nos sentimos assim é entender que a inteligência como a entendemos hoje é um fator que depende de algumas variantes, veja:
Como sei que estou usando o cérebro da forma correta?O cérebro humano é um órgão incrível, mas, assim como a própria natureza humana ele também é limitado. Muitas vezes nos alimentamos mal, dormimos mal, nos forçamos a ter motivação por coisas que não gostamos, tentamos absorver um volume imenso de informações e gastamos muita energia tomando decisões fúteis.
“E depois de tudo isso, queremos que o cérebro tenha um desempenho incrível, e perguntamos como fazer para ser mais inteligente! O primeiro passo, que estaria escrito no manual de instruções do cérebro, é respeitar as limitações biológicas e ajudá-lo a ficar saudável”, lembrou a cientista.
Algum esforço mental pode nos deixar mais inteligentes?

Inteligência é um termo com muitas definições a depender da área de estudo, mas pode ser entendida como a capacidade de analisar informações, aprender com a experiência e adaptar-se ao ambiente. Podemos entender a inteligência principalmente como a habilidade de usar nossos sentidos e pensamentos para resolver problemas, o que não é simplesmente receber um estímulo do ambiente e reagir a ele, segundo a especialista. “Ser inteligente na espécie humana é saber analisar dados racionalmente – adotando o tipo de pensamento metódico – e ao mesmo tempo perceber que pode mudar o ponto de vista e inverter totalmente a estratégia – adotando o tipo de pensamento flexível”, lembrou.

O treino cognitivo e a inteligência

A ginástica para o cérebro ou treino cognitivo torna uma série de habilidades mais bem desenvolvidas e automatizáveis com mais facilidade, o que poupa energia para usar em processos de pensamento mais lentos, como ponderar decisões e ser criativo.

“Foco, concentração, memória, noção visuoespacial e atenção são funções cognitivas base para todo processamento cognitivo – treiná-las é como ‘afiar o machado’. Por exemplo, se desenvolvemos a habilidade da atenção seletiva, conseguimos focar melhor nas informações úteis sem o desespero de tentar “guardar tudo na cabeça” – o que seria ineficaz! Se desenvolvemos bem a memória de trabalho, entendemos que ela é limitada e aprendemos quais estratégias vão funcionar para que não esqueça aquela tarefa importante”, lembrou Livia Ciacci, neurocientista do Supera.

sábado, 28 de março de 2026

Notícias Ao Fim Da Tarde

A Frase (57)



Ao reclamar contra a eventual eleição de um juiz do Chega, com os favores do PSD, os socialistas dizem que se rompe o equilíbrio, que se trata quase de um golpe constitucional. Dado o actual panorama, bem vista a composição do Parlamento, não parece insensato que haja uma inclinação à direita. Ora, o PS já denunciou a quebra do equilíbrio instaurado há anos e que repartia os juízes equitativamente entre o PSD e o PS. Não se percebe a noção que os socialistas têm desse equilíbrio. É uma “mão invisível” que ordena a vida política desde há quarenta anos? São “direitos adquiridos” do PS, válidos em qualquer evolução eleitoral? É um “sopro divino” que trata o PS com especial favor?

Como se faz um equilíbrio democrático sem critérios verificáveis? Como se estabelece esse equilíbrio sem os votos dos cidadãos? Quando o PS ou o PSD tiverem 10% dos votos, o equilíbrio mantém-se? Mesmo se outros partidos tiverem 40%? O nascimento deste “equilíbrio” não tem origem em acordo de cavalheiros ou em altruísmo político. Foi um tratado puro e duro, no mútuo interesse, numa altura em que vingava uma espécie de “bipartidarismo”. Este deixou de existir. É patético tentar mantê-lo, quase constitucionalmente, sem os votos soberanos. Aliás, esse equilíbrio invisível foi desrespeitado quando se tratou de derrubar governos minoritários ou quando se criou a “geringonça”.  (António Barreto, Público)


A Realidade Humana


O conhecimento do conhecimento ensina-nos que apenas conhecemos uma pequena película da realidade. A única realidade que é cognoscível é co-produzida pelo espírito humano, com a ajuda do imaginário. O real e o imaginário estão entretecidos e formam o complexo dos nossos seres e das nossas vidas. A realidade humana em si mesma é semi-imaginária. A realidade é apenas humana, e apenas parcialmente real.           

(Edgar Morin)

sexta-feira, 27 de março de 2026

Notícias Ao Fim Da Tarde

A Frase (56)

 Não lembra ao diabo que o líder do PS visite uma ditadura alvo de duras sanções económicas da União Europeia, com centenas de presos políticos e que é um dos países mais corruptos do mundo.       (Luís Rosa, OBSR)

Resumindo e concluindo: José Luís Carneiro, secretário-geral do PS, decidiu fazer uma visita oficial de quatro dias acompanhado de Eurico Brilhantes Dias, líder parlamentar do PS, a uma ditadura que é, ao mesmo tempo, um dos países mais corruptos do mundo e que é alvo de fortes sanções económicas da União Europeia desde 2017 por não respeitar o Estado de Direito e manipular eleições.

Pior: o líder de um dos principais partidos democráticos portugueses resolveu pedir uma audiência a uma ditadora chamada Delcy Rodriguez que é um dos políticos venezuelanos contra quem a UE tomou as “as medidas necessárias para impedir a entrada no seu território ou o trânsito pelo mesmo” por ser uma das “pessoas singulares responsáveis por violações graves dos direitos humanos ou pela repressão da sociedade civil e da oposição democrática na Venezuela” e por promover ”
ações, políticas ou atividades” que comprometem “a democracia ou o Estado de direito na Venezuela”.

Pior ainda: Carneiro anunciou o encontro com pompa e circunstância com a substituta de Nicolás Maduro mas a reunião não se verificou porque Delcy teve coisas mais importantes para fazer e deixou o secretário-geral do PS à espera… 

Leve, Leve, Muito Leve


Leve, leve, muito leve,
Um vento muito leve passa,
E vai-se, sempre muito leve.
E eu não sei o que penso
Nem procuro sabê-lo.

(Alberto Caeiro)

quinta-feira, 26 de março de 2026

Notícias Ao Fim Da Tarde

A Frase (55)

 A desinformação não visa apenas convencer. Visa corroer esse consenso mínimo. Visa criar uma sensação permanente de incerteza. Visa instalar a ideia de que tudo é relativo, que tudo é manipulável, que nada é confiável. E quando nada é confiável, as instituições deixam de ser legítimas aos olhos de uma parte da população. É aqui que a desinformação se cruza com a guerra híbrida.

Discutir desinformação é discutir poder, mas é também discutir verdade, e é discutir Escolhas .(...) A desinformação não é apenas um problema técnico, não é apenas um problema comunicacional, é um problema estrutural para qualquer regime que assente na liberdade.

Hoje, uma narrativa falsa pode ser criada num continente, amplificada noutro e internalizada num terceiro, em poucas horas. Pode ser segmentada por perfis psicológicos. Pode ser reforçada por redes automatizadas. Pode ser replicada por inteligência artificial com um grau de realismo que há poucos anos seria impensável.

Mas há uma transformação ainda mais profunda: já não vivemos apenas num ambiente de excesso de informação. Vivemos num ambiente de fragmentação da autoridade.

Durante décadas, a esfera pública era relativamente concentrada. Existiam jornais de referência, canais de televisão com responsabilidade editorial clara, regras profissionais estabelecidas. A informação circulava num espaço mais delimitado.

Entrámos numa era em que a própria evidência visual deixou de ser prova suficiente. Isto altera radicalmente o ambiente social e democrático. Porque a democracia depende de um mínimo de consenso factual. Podemos discordar sobre políticas públicas. Podemos divergir sobre prioridades orçamentais. Podemos ter visões distintas sobre o papel do Estado. Mas se deixarmos de concordar sobre factos básicos, o debate torna-se impossível.   (Tópicos do texto de Rodrigo Saraiva, ECO)