A desinformação não visa apenas convencer. Visa corroer esse consenso mínimo. Visa criar uma sensação permanente de incerteza. Visa instalar a ideia de que tudo é relativo, que tudo é manipulável, que nada é confiável. E quando nada é confiável, as instituições deixam de ser legítimas aos olhos de uma parte da população. É aqui que a desinformação se cruza com a guerra híbrida.Discutir desinformação é discutir poder, mas é também discutir verdade, e é discutir Escolhas .(...) A desinformação não é apenas um problema técnico, não é apenas um problema comunicacional, é um problema estrutural para qualquer regime que assente na liberdade.
Hoje, uma narrativa falsa pode ser criada num continente, amplificada noutro e internalizada num terceiro, em poucas horas. Pode ser segmentada por perfis psicológicos. Pode ser reforçada por redes automatizadas. Pode ser replicada por inteligência artificial com um grau de realismo que há poucos anos seria impensável.
Mas há uma transformação ainda mais profunda: já não vivemos apenas num ambiente de excesso de informação. Vivemos num ambiente de fragmentação da autoridade.
Durante décadas, a esfera pública era relativamente concentrada. Existiam jornais de referência, canais de televisão com responsabilidade editorial clara, regras profissionais estabelecidas. A informação circulava num espaço mais delimitado.
Entrámos numa era em que a própria evidência visual deixou de ser prova suficiente. Isto altera radicalmente o ambiente social e democrático. Porque a democracia depende de um mínimo de consenso factual. Podemos discordar sobre políticas públicas. Podemos divergir sobre prioridades orçamentais. Podemos ter visões distintas sobre o papel do Estado. Mas se deixarmos de concordar sobre factos básicos, o debate torna-se impossível. (Tópicos do texto de Rodrigo Saraiva, ECO)

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