O Califado Virtual prospera, não por falha técnica, mas por indefinição institucional. As democracias tratam o digital como mercado ou praça pública, raramente como espaço de autoridade democrática.
(Francisco Jorge Gonçalves, OBSR)
Em 2019, a derrota territorial do Estado Islâmico (EI) em Baghouz foi amplamente interpretada como o fim de uma ameaça. Poucos anos depois, essa leitura revelou-se ilusória. O EI não desapareceu: mudou de forma. Perdeu território físico, mas ganhou presença digital. Hoje, a sua influência já não depende de fronteiras, campos de treino ou controlo geográfico. Depende de código, plataformas e algoritmos.
Este fenómeno, a que se pode chamar “Califado Virtual”, não corresponde a uma organização tradicional. É antes uma arquitetura de poder ideológico que circula online, explora tecnologias de Inteligência Artificial (IA) e disputa às democracias o controlo do espaço onde hoje se formam identidades, pertenças e ressentimentos.
A IA não inventou o extremismo. Mas deu-lhe escala, velocidade e invisibilidade. O recrutamento jihadista, que durante anos exigiu contacto humano prolongado entre militante e potencial recruta, foi profundamente transformado. A radicalização já não precisa de semanas de interação pessoal em fóruns fechados. Pode ocorrer através de sistemas automatizados, capazes de interagir com milhares de indivíduos em simultâneo, ajustando discurso, tom emocional e narrativa a cada perfil.
Estes sistemas identificam vulnerabilidades — solidão, frustração, crises identitárias — e respondem de forma personalizada, simulando empatia e compreensão. A radicalização deixa, assim, de ser um processo social visível para se tornar um diálogo privado entre o indivíduo e o algoritmo.
( Ler aqui texto na íntegra OBSR)
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