A coerência de Passos, tal como a sua aura, só se sustenta a partir de fora do poder. Se estivesse na posição de Montenegro, ou abdicaria do liberalismo reformista ou abdicaria do poder. (Mafalda Pratas,
OBSR)
À primeira vista, são dois episódios sem qualquer ligação. De um lado, o Chega apresentou a sua proposta populista de reforma da Segurança Social, que corresponde a um aumento enorme de despesa com pensões, pago por um alegado “excedente” que os imigrantes geram na Segurança Social. Do outro, Pedro Passos Coelho, num lançamento de livro (como de costume) e sem nomear ninguém (como também já é hábito),
chamou “prostituto sem carácter” ao político que imita o populista para o derrotar. Foram dois acontecimentos distintos, mas o problema é o mesmo. Existe uma maioria aritmética de direita no parlamento, mas é uma ilusão achar que existe qualquer maioria ideológica. A posição de Passos Coelho esconde um paradoxo fundamental.
Seria fácil despachar isto como mera demagogia, mas seria também um erro de análise. A proposta é coerente com o eleitorado do Chega que, como tenho defendido, combina a procura de protecção social, de mais Estado (com mais despesa pública) e uma agenda dura em imigração e segurança. Com esta proposta, Ventura não está a trair os seus eleitores; está a representá-los. O problema nasce daqui: o eleitorado da AD e da IL quer precisamente o contrário do eleitorado do Chega em matéria económica. Não estamos perante uma divergência de grau entre duas alas da direita, mas sim perante uma divergência ideológica e sociológica profunda, entre eleitorados que querem coisas opostas.
(Continuação)
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