Faz rodar o pião redondo tudo em volta
Atira a primavera e recupera o verão
Terras e tempos, tudo assume esse pião
que rodopia e rouba o chão à folha solta
Rasga o espaço num gesto ríspido de vida
reergue o braço a prumo, arrisca - nessa roda
possível da maçã ao muro - a infância toda
Tudo é redondo e torna ao ponto de partida
O sol a sombra a cal os pássaros os pés
o adro a pedra o frio os plátanos... Quem és?
Voltas? rodas? regressas? rodopias? - Nada
Mão do breve pião, levanta ao céu a enxada:
que a vida arrebatada aos demais olhos seja
ao comprido coberta pelo chão da igreja
(Ruy Belo)
O tema do pião serve como uma reflexão poética e filosófica sobre a passagem do tempo, a memória, a infância e o efémero da vida humana.
O Movimento do Pião: O movimento circular e rotativo do pião simboliza a dinâmica da própria existência: o rodar constante que suspende o tempo e, simultaneamente, cria a ilusão de um eterno regresso.
A Nostalgia e a Infância: O poema usa o pião para resgatar imagens do passado e da infância, tentando encontrar ordem no caos das coisas do mundo.
Um dos excertos mais conhecidos que ilustra esta dinâmica poética reflete exatamente a metáfora de como tudo gira em torno deste eixo.
