Que André Ventura não é confiável não é propriamente uma descoberta científica. No Contra-Corrente de 19 de junho afirmei-o sem qualquer hesitação. Ainda assim, quando me perguntaram se o Chega votaria com o PSD na lei laboral, dei o benefício da dúvida, acreditando que Ventura escolheria a coerência. Enganei-me.
O primeiro problema é a sua falta de fiabilidade política. Ventura apresenta-se como um homem de convicções inabaláveis, mas as suas posições mudam frequentemente ao sabor da conveniência do momento. Hoje apoia uma medida, amanhã rejeita-a e, se necessário, depois de amanhã explicará que sempre defendeu a posição oposta.
Ventura fala de coragem política desde que não tenha de suportar os custos que essa coragem implica e defende reformas desde que não seja necessário enfrentar a impopularidade das mesmas. O resultado é um padrão recorrente: a retórica promete firmeza, mas a prática revela hesitação e oportunismo.
Isso seria já suficientemente problemático para quem aspira a exercer funções governativas. Mas existeum segundo ponto, ainda mais relevante. Apesar de se apresentar como o grande inimigo do sistema, Ventura comporta-se frequentemente como defensor daquilo que mais crítica:
O líder do Chega já demonstrou repetidamente duas características essenciais: a dificuldade em honrar compromissos políticos estáveis e a tendência para agir como um barão conservador de esquerda sempre que é chamado a escolher entre a popularidade imediata e a coerência reformista. (Vicente Ferreira da Silva, OBSR) (texto na íntegra)
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