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sábado, 15 de janeiro de 2022

Vivemos O Momento De Maior Conflitualidade Dentro Da Justiça

De: António Barreto
Parece que, na história recente do país, vivemos o momento de maior conflitualidade dentro da justiça. Já conhecemos implicações sérias nas relações entre a Justiça e a política, entre a Justiça e o governo, entre a Justiça e os grandes grupos económicos. Trata-se de relações complexas, feitas ora de aversão ora de cumplicidade. Neste universo controverso, sempre houve de tudo. Ou sempre se suspeitou de tudo. Dos mais baixos interesses materiais e dos mais elevados interesses políticos. De interferências cristãs ou maçónicas. De favores prestados a partidos ou a clubes de futebol.

É aliás curioso ver como o segredo de justiça se transformou num mecanismo de defesa dos magistrados e dos poderosos. As fugas de informação e as violações do segredo de justiça estão entre os factores mais referidos como deficiências da justiça. O problema é que fugas e violações têm uma origem. E autores. Sempre foi claro que não há fugas nem violações sem responsabilidade dos agentes de justiça. Dos magistrados. Dos oficiais de justiça. Dos advogados. Mas o mais certo é que se trate da responsabilidade dos magistrados. Ou porque assim entendem e têm algo a ganhar com isso. Ou porque não tomaram as precauções necessárias para evitar as fugas e as violações. São responsáveis por acção ou por omissão. Por vontade própria ou por incompetência.

Teria sido importante que a campanha eleitoral se tivesse debruçado seriamente sobre a justiça e os seus defeitos. Os partidos deveriam ter agido sem medo de invadir territórios alheios e sem receio de serem acusados de ataque à independência dos magistrados. A justiça jamais se reformará a ela própria. Ainda por cima, sabendo nós que os magistrados estão praticamente em guerra.

Será que os responsáveis políticos, os dirigentes do Estado, os principais magistrados não percebem, não sentem, não se dão conta do que se está a fazer ao país e à população? Com esta demonstração de incompetência, de covardia, de partidarismo e de parcialidade, está a causar-se um dano irreversível, perene ou de longa duração ao estado moral da população, à confiança do povo na justiça e nas instituições. Será que não percebem que a população perde a confiança, perde o sentido moral da vida colectiva, perde a dimensão ética da vida política?

(Excertos do texto de António Barreto no Público, (via Sorumbático)

Sentes, Pensas E Sabes Que Pensas E Sentes


Dizes-me: tu és mais alguma cousa
Que uma pedra ou uma planta.
Dizes-me: sentes, pensas e sabes
Que pensas e sentes.
Então as pedras escrevem versos?
Então as plantas têm idéias sobre o mundo?

Sim: há diferença.
Mas não é a diferença que encontras;
Porque o ter consciência não me obriga a ter teorias sobre as cousas:
Só me obriga a ser consciente.

Se sou mais que uma pedra ou uma planta? Não sei.
Sou diferente. Não sei o que é mais ou menos.

Ter consciência é mais que ter cor?
Pode ser e pode não ser.
Sei que é diferente apenas.
Ninguém pode provar que é mais que só diferente.

Sei que a pedra é a real, e que a planta existe.
Sei isto porque elas existem.
Sei isto porque os meus sentidos mo mostram.
Sei que sou real também.
Sei isto porque os meus sentidos mo mostram,
Embora com menos clareza que me mostram a pedra e a planta.
Não sei mais nada.

Sim, escrevo versos, e a pedra não escreve versos.
Sim, faço idéias sobre o mundo, e a planta nenhumas.
Mas é que as pedras não são poetas, são pedras;
E as plantas são plantas só, e não pensadores.
Tanto posso dizer que sou superior a elas por isto,

Como que sou inferior.
Mas não digo isso: digo da pedra, "é uma pedra",
Digo da planta, "é uma planta",
Digo de mim, "sou eu".
E não digo mais nada. Que mais há a dizer?

(Alberto Caeiro, in "Poemas Inconjuntos"
Heterónimo de Fernando Pessoa)

sexta-feira, 14 de janeiro de 2022

Notícias Ao Fim Da Tarde

A Frase

Nunca vi uma pré-campanha com tanto facciosismo como esta, e os culpados são, sem qualquer margem para dúvidas, as televisões que gastaram mais tempo com as análises aos debates do que propriamente às ideias de cada um dos candidatos. Nada disto seria “anormal”, não fosse o facto de as televisões, na sua maioria, terem escolhido comentadores que são mais facciosos do que os candidatos. Como é possível terem ido ao baú do jornalismo, e não só, buscar personagens para perorarem sobre a prestação dos candidatos, quando muitos dos comentadores são mais papistas do que o Papa?   (Vítor Rainho Ji)    (ler aqui texto completo)

O Segredo É Não Correr Atrás


O segredo é não correr atrás das borboletas...
É cuidar do jardim para que elas venham até você.

(Mário Quintana)

quinta-feira, 13 de janeiro de 2022

Notícias Ao Fim Da Tarde

A Frase

A Rússia quer dividir a Europa, a América tem outras preocupações, e os europeus não conseguem tomar conta de si, já não confiam nos americanos e não são de confiança. Putin aproveita.       (Henrique Burnay, OBSR)

Tradicionalmente, quando os Estados Unidos reuniam com a Rússia os europeus acreditavam que os seus interesses e a sua segurança eram garantidos pela América. Hoje, não é bem assim. Por estes dias, russos e americanos têm estado reunidos para discutir a situação na Ucrânia,

Não Tenho Pressa: Não A Têm O Sol E A Lua


Não tenho pressa: não a têm o sol e a lua.
Ninguém anda mais depressa do que as pernas que tem.
Se onde quero estar é longe, não estou lá num momento.

Sim: existo dentro do meu corpo.
Não trago o sol nem a lua na algibeira.
Não quero conquistar mundos porque dormi mal,
Nem almoçar o mundo por causa do estômago.
Indiferente?
Não: filho da terra, que se der um salto, está em falso,
Um momento no ar que não é para nós,
E só contente quando os pés lhe batem outra vez na terra,
Traz! na realidade que não falta!

Não tenho pressa. Pressa de quê?
Não têm pressa o sol e a lua: estão certos.
Ter pressa é crer que a gente passe adiante das pernas,
Ou que, dando um pulo, salte por cima da sombra.
Não; não tenho pressa.
Se estendo o braço, chego exactamente aonde o meu braço chega -
Nem um centímetro mais longe.
Toco só aonde toco, não aonde penso.
Só me posso sentar aonde estou.
E isto faz rir como todas as verdades absolutamente verdadeiras,
Mas o que faz rir a valer é que nós pensamos sempre noutra coisa,
E somos vadios do nosso corpo.
E estamos sempre fora dele porque estamos aqui.

(Alberto Caeiro)

quarta-feira, 12 de janeiro de 2022

Notícias Ao Fim Da Tarde

A Frase

As páginas viradas - A viragem desta página em 2015 interrompeu o processo desta correcção - e o preço que tem de se pagar está definido no continuado agravamento desses desequilíbrios, que só foi possível gerir com o apoio da política monetária do BCE.   (Joaquim Aguiar, JNegócios)