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quarta-feira, 22 de abril de 2026

Avizinhar-se Do Silêncio

Creio que é absolutamente urgente revisitarmos com outro apreço os territórios dos nossos silêncios e fazermos deles lugares de troca, de diálogos, de encontros. O silêncio é um instrumento de construção, é uma lente, uma alavanca. As nossas sociedades investem tanto na construção de competências na ordem da palavra (e pensemos como a escolarização está ao serviço da capacitação dos indivíduos em ordem a um funcionamento eficaz com a palavra) e tão pouco nas competências que operam com o silêncio! 

Somos analfabetos do silêncio e esse é um dos motivos por que não encontramos paz. O silêncio é um traço de união mais frequente do que se imagina, e mais fecundo do que se julga. O silêncio tem tudo para se tornar um saber partilhado sobre o essencial. Mas para isso precisamos de uma iniciação ao silêncio, que é o mesmo que dizer uma iniciação à arte de escutar.

Numa cultura de avalanche como a nossa, a verdadeira escuta só pode configurar-se como uma re-signifícação do silêncio, um recuo crítico perante o frenesim das palavras e das mensagens que a todo o minuto pretendem aprisionar-nos. A arte da escuta é, por isso, um exercício necessário de resistência.

(José Tolentino Mendonça)

terça-feira, 21 de abril de 2026

Notícias Ao Fim Da Tarde

Esta É A Frase (69)

             O conflito com o Irão reúne condições para ser um separador histórico com alterações profundas na geografia política do mundo. (Helena Garrido, OBSR)

O conflito com o Irão já nos deu menos crescimento e mais inflação, desestabilizou os países do Golfo, agravou as tensões entre os Estados Unidos e os seus aliados europeus e reforçou o poder político e económico da China. O mundo depois do Irão, dependendo criticamente da forma como os EUA saírem do conflito, envolve já o sério risco de decadência do designado “império americano”, com a hipótese de entrarmos num mundo multipolar ou com a polaridade centrada na China. E de a Europa deixar de contar com os Estados Unidos na NATO, numa altura em que ainda não está preparada para se defender. E, claro, teremos um mundo com mais raiva no Médio Oriente, com o pior cenário no caso de nem se conseguir dar ao Irão um novo regime. 

Uma Vez Que Já Tudo Se Perdeu


Que o medo não te tolha a tua mão
Nenhuma ocasião vale o temor
Ergue a cabeça dignamente irmão
Falo-te em nome seja de quem for

No princípio de tudo o coração
Como o fogo alastrava em redor
Uma nuvem qualquer toldou então
Céus de canção promessa e amor

Mas tudo é apenas o que é
levanta-te do chão põe-te de pé
Lembro-te apenas o que te esqueceu

Não temas porque tudo recomeça
Nada se perde por mais que aconteça
Uma vez que já tudo se perdeu

(Ruy Belo)

segunda-feira, 20 de abril de 2026

Notícias Ao Fim Da Tarde

Esta É A Frase (68)

Os políticos continuam a ter sobretudo medo e sobretudo falta de coragem. A política receia as empresas transnacionais que têm uma nova soberania maior do que os países, a nova desordem internacional, a deriva especulativa dos mercados, o narcotráfico, o extremismo terrorista, as vagas de imigração, os partidos populistas, a inteligência artificial, o perigo da impopularidade, a verdade estática das sondagens, o abismo do desemprego, a ascensão das novas potências, o declínio das velhas potências. E com tantos motivos de medo não há espaço para a coragem de uma nova criatividade política. A criatividade política está sequestrada numa bomba de gasolina ameaçada por uma pistola de abastecimento.     (Carlos Marques de Almeida. ECO)
 

Alienação


As nuvens se encolheram,
abrindo caminho no céu,
revelando a infinitude do vazio.

O vento não soltou a voz;
os animais se aninharam silenciosamente;
as ondas se largaram, mansamente;
o sol e a lua se encontraram no espaço;
as hastes das plantas se dobraram
e as flores encostaram as pétalas na relva,
em gesto de reverência;
os galhos das árvores se uniram,
como se fossem mãos em prece.

A natureza se prostrou,
usufruindo a beleza da revelação.

Só os homens,
mergulhados no ruído do fazer,
nada viram,
nada ouviram…
Nem entenderam
por que tudo aconteceu… 

(Adélia Maria Woellner, Infinito de Mim)

domingo, 19 de abril de 2026

Notícias Ao Fim Da Tarde

Esta É A Frase (67)

 
Salvo as devidas diferenças, tal como sucedeu no regime do Estado Novo, o actual sistema político não dá margem para as mudanças que permitam que os portugueses vivam melhor.

Apesar do desfasamento ter regressado ninguém espera um revolução porque Portugal está integrado na União Europeia que neutraliza essa divergência com a realidade. Mas a verdade não deixa de ser uma, e bem simples: as anestesias podem tirar a sensibilidade, mas as causas do mal-estar estão lá e continuam a crescer. Até um dia em que tudo rebenta.

A grande transformação foi essencialmente política. O fim da ditadura e o início da democracia, ou da possibilidade de uma que se garantiu mais tarde.

O actual sistema político não dá grande margem para mudanças que permitam a melhoria das condições de vida das pessoas e estas, tal como no passado, fazem o que podem fazer: vão embora.

Há duas alterações que se tornam cada vez mais urgentes para que se reduza esse desfasamento entre o país e a comunidade política. A primeira é a reforma do sistema eleitoral.

É tempo de, com serenidade e sem oportunismos políticos com vista à obtenção de outros resultados, adaptar o regime político aos tempos actuais ao mesmo tempo que se aperfeiçoa, com uma reforma eleitoral, o diálogo entre eleitores e eleitos.

(Tópicos do texto de André Abrantes Amaral, OBSR)

Inicial


O dia não é hora por hora,
é dor por dor,
o tempo não se dobra,
não se gasta,
mar, diz o mar,
sem trégua,
terra, diz a terra,
o homem espera.
E só
seu sino
está ali entre os outros
guardando em seu vazio
um silêncio implacável
que se repartirá
quando levante sua língua de metal
onda após onda.

De tantas coisas que tive,
andando de joelhos pelo mundo,
aqui, despido,
não tenho mais que o duro meio-dia
do mar, e um sino.

Eles me dão sua voz para sofrer
e sua advertência para deter-me.

Isto acontece para todo o mundo,
continua o espaço.

E vive o mar.

Existem os sinos.

(Pablo Neruda)