Pesquisar neste blogue

segunda-feira, 27 de outubro de 2025

A Frase (235)

O discurso político, especialmente o da esquerda, mantém-se preso a categorias ultrapassadas, centradas na oposição capital-trabalho e à ideia de um Estado central redistributivo. Mas a classe trabalhadora é hoje urbana, digital e autónoma. A esquerda perdeu influência não apenas pela governação, mas por não conseguir atualizar a sua leitura do país nem responder de forma estruturada a temas críticos como a habitação, o rendimento, a qualidade de vida e a transição tecnológica. A direita, por seu lado, insiste em fórmulas liberais genéricas, sem uma estratégia consistente de reforma nem de valorização do conhecimento e da inovação.   (Adalberto Campos Fernandes, SOL)

Dança Lenta


Não somos nem bons nem maus:
somos tristes. Plantados entre chão
e estrelas, lutamos com sangue,
pedras e paus, sonho
e arte.

Nem vida nem morte:
somos lúcida vertigem,
glória e danação. Somos gente:
dura tarefa.
Com sorte, aqui e ali a ternura
faz parte.

(Lya Luft)

domingo, 26 de outubro de 2025

Notícias Ao Fim Da Tarde

A Frase (234)

 Pela primeira vez, os governos do mundo inteiro reconheceram que a desigualdade, o colapso climático e a perda de biodiversidade não são problemas separados — são sintomas do mesmo sistema desequilibrado.

(Mafalda Sarmento. J Negócios) 

2030 não é o fim: é o ponto de viragem para o futuro que ainda queremos - A presidente Ursula von der Leyen defende que o futuro da Europa dependerá da sua capacidade de unir ambição climática, justiça social e autonomia estratégica.  

Mas, segundo o Sustainable Development Report 2025, a cinco anos do prazo final, o balanço é amargo. Apenas 17% das metas estão no bom caminho, quase metade avança lentamente e uma em cada cinco regrediu. O progresso é desigual, as crises multiplicam-se e a confiança na cooperação internacional enfraquece. Ainda assim, nunca a ideia de uma agenda comum para o planeta foi tão necessária.

O que está em causa não é apenas cumprir objetivos. É reaprender a cooperar num mundo cansado de desilusões, reatar a confiança entre ciência, política e cidadãos, e transformar o cansaço em visão.

Talvez, como escreveu a Nature Sustainability, “não consigamos fazer em cinco anos o que não fizemos em dez”, mas ainda podemos — como lembrou María Cortés Puch — “usar o melhor mapa que já tivemos para reencontrar o caminho.”

Metade ...


E que essa tensão
que me corrói por dentro
seja um dia recompensada.

Porque metade de mim
é a lembrança do que fui,
a outra metade eu não sei.

mais do que uma simples alegria
para me fazer aquietar o espírito.

E que o teu silêncio
me fale cada vez mais.

Porque metade de mim
é abrigo, mas a outra metade é cansaço.

Que a arte nos aponte uma resposta,
mesmo que ela não saiba.

E que ninguém a tente complicar
porque é preciso simplicidade
para fazê-la florescer.

Porque metade de mim é platéia
e a outra metade é canção.

E que a minha loucura seja perdoada.

Porque metade de mim é amor,
e a outra…
também.

(Ferreira Gullar)

sábado, 25 de outubro de 2025

Notícias Ao Fim Da Tarde

A Frase (233)

Mudam as formas dos rios, das águas, da cor do céu, dos elementos, da Lua, das estações do ano, dos povos, das civilizações e costumes. Mas, antiga e terrível, permanece a teimosa interrogação da vida   (Paulo Ramos, OBSR)

Existirá uma cidadela interior capaz de nos proteger da vulnerabilidade? Não falta quem diga que sim… Quem sabe, contudo, a resposta não seja assim tão cristalina, porque não nos basta proteger do desejo, mas também das feridas – algo que, para um ser finito, talvez não seja possível. As vidas dos corpos finitos são precárias, os objectos que nos acompanham, as relações que mantemos connosco e também com os outros são relações frágeis que se podem quebrar. (...)

Somos, desde o primeiro momento, corpos expostos às feridas causadas pelo mundo, pela vida e pelos outros, e, evidentemente, também às feridas que infligimos ao mundo, à vida e aos outros. Uma ferida não é, portanto, necessariamente sinónimo de dor ou sofrimento, mas de envolvimento, de pathos. O facto de a condição humana ser vulnerável implica que se aceite a existência como estando envolvida por qualquer coisa que não se pode dominar. Algo que nos surpreende, nos invade, nos salta ao caminho e a que nunca somos capazes de dar uma resposta – uma resposta a priori, definitiva e segura, pelo menos (...)

Não há estabilidade na vida humana. Qualquer estabilidade será sempre provisória, momentânea. As ondas são a imagem que expressa o devir, aquele tornar-se necessariamente vulnerável, porque inquieto e também inquietante. (...)

Um corpo vulnerável não pode, mesmo que o desejasse, exorcizar o acaso, porque a qualquer momento acontece o inesperado, o completamente inimaginável, o radicalmente incomum; algo que derrota todos os projectos e obriga a reconstruir a existência; algo que irrompe de repente e provoca agitação. Um corpo vulnerável é configurado mais pelo que lhe acontece do que pelo que faz, é um corpo apaixonado. Temos a tendência de pensar que somos aquilo que fazemos, aquilo que decidimos fazer, quando, na realidade, somos aquilo que nos acontece. Somos vulneráveis porque somos ambíguos e contraditórios.

Somos Inocentes


A parte dura desta humana lida
é dizer sim na hora do não,
escolher mal entre silêncio e grito,
entre a noite e a explosão
do dia.

Ceder quando devíamos negar, dizer
não em lugar de afirmar, partir
quando era bom amar, fechar-se
em vez de resgatar
a vida.

Sermos tão incertos e indecisos,
perdendo o trem, a hora,
o agora: mas a gente
não sabia.

(Lya Luft)
Em Para não dizer adeus.

sexta-feira, 24 de outubro de 2025

Notícias Ao Fim Da Tarde

A Frase (232)

Quem manda no Mundo ou a guerra das terras raras - O controlo das matérias-primas vitais para o funcionamento de novas tecnologias economicamente dominantes passa a ter uma importância vital, alterando o mapa geoestratégico global.    (Bruno Cardoso Reis, OBSR)

Graças ao seu domínio da extração e refinação desses recursos a China pode, no limite, paralisar boa parte da capacidade de fabricação por todo o Mundo da maioria das tecnologias mais avançadas, desde os computadores de bolso a que chamamos smartphones, até carros elétricos, sem esquecer sistemas de armamento avançados.

A China viu nas terras raras uma oportunidade estratégica única: algo custoso e sujo com que mais ninguém queria lidar, mas de que todos iriam precisar cada vez mais. (...) O resultado é que, hoje, Pequim controla 68% da mineração de terras raras.

E nós, na Europa? Devemos acordar antes que seja tarde. Em Portugal, como de costume sobre questões de fundo que exigem planeamento e estratégico a prazo, não parece haver grande preocupação ou debate. A União Europeia até parece ter acordado nos últimos anos para a gravidade deste problema, pelo menos em termos de declarações de intenções. 

Qual é o grande problema? Não existe um financiamento europeu específico para este esforço de diversificação. A China e, cada vez mais, também os EUA estão a investir milhares de milhões de dólares. Também não temos, claro, um governo forte que possa rapidamente afastar obstáculos ou pressionar parceiros hesitantes.