Não é um sistema que falha apesar dos seus defensores. É um sistema que falha por causa deles. (João A. B. da Silva, OBSR)
O Serviço Nacional de Saúde está no fim do gradual. Em média, quatro médicos abandonam o SNS por dia. No último concurso de especialidade, meio ano depois de 1.350 médicos concluírem a sua formação, apenas 400 estavam colocados no SNS. O SNS recebe o dinheiro de todos independentemente do serviço que presta. Resiste à avaliação, porque medir é expor e expor compromete carreiras. A paixão declarada pelo público funciona, na prática, como licença para o gerir mal. Gerir mal não tem custo. Levantar ondas tem. Toda a instituição pública gera com o tempo uma clientela que depende mais da sua existência do que do seu desempenho, e que a defende não apesar de a gerir mal, mas porque é assim que dela vive. Chama-se a isto politização da gestão, e não é um acidente do modelo. É o modelo.O médico passa parte do dia transformado em dactilógrafo, sem secretariado, sem um sítio sequer onde se sentar a estudar entre doentes. Nenhum orçamento resolve isto. O que resolve é pagar bem a quem é bom, medir resultados, e deixar de nomear directores por filiação partidária. E nenhum financiamento, por generoso que seja, sobrevive à fuga de quem o justifica. Sem os médicos que formou, o Estado fica com edifícios. Vazios
O Canadá, país de matriz social-democrata com um sistema público de estruturalmente parecido com o nosso. Quando faltam médicos, as províncias canadianas vão buscá-los onde eles estão. Em 2025, a Colúmbia Britânica abriu uma via directa de licenciampleno a especialistas formados nos Estados Unidos, no Reino Unido, na Austrália e na Irlanda, sem os obrigar a repetir provas que já tinham feito. Recebeu 780 candidaturas de profissionais de saúde americanos em apenas dois meses, segundo comunicado oficial do governo provincial de Julho de 2025. O reflexo perante a escassez não foi proteger o lugar de quem já lá estava nem invocar a pureza do modelo. Foi ir ao mercado mundial buscar quem fizesse o trabalho. O Canadá ama menos o discurso do serviço público e protege muito mais a coisa pública em si.

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