Há uma especialidade médica que não se limita a tratar doenças. Gere percursos, integra decisões, coordena equipas e tenta impedir que o doente se perca dentro do próprio hospital. Chama-se Medicina Interna
É por isso que a Medicina Interna deve deixar de ser vista apenas como um serviço de internamento e passar a ser encarada como uma verdadeira plataforma de integração clínica. O internamento é apenas uma etapa. O percurso pode começar na urgência, passar por uma unidade de decisão rápida, continuar num hospital de dia, prosseguir em hospitalização domiciliária e regressar aos cuidados primários.
O que garante continuidade não é o edifício. É o plano.
A Medicina Interna deve evoluir de especialidade centrada na cama para especialidade centrada no percurso do doente.
Vários países europeus já ensaiam esta viragem. Em Inglaterra, o Same Day Emergency Care permite avaliar, diagnosticar, tratar e reavaliar no próprio dia doentes que, de outro modo, poderiam acabar internados. Em linguagem hospitalar simples: muitos doentes não precisam de vários dias de cama; precisam de algumas horas bem organizadas, com decisão clínica, diagnóstico rápido, tratamento adequado e seguimento programado.
Outros podem ser tratados em hospital de dia ou receber cuidados hospitalares em casa. As virtual wards inglesas, o Hospital at Home escocês e a hospitalização domiciliária desenvolvida na Catalunha mostram que o futuro não passa necessariamente por construir mais hospital. Passa por construir melhor hospital: menos fragmentado, mais coordenado e mais próximo das pessoas.
Mas este modelo exige responsabilidade. Hospitalização domiciliária não é abandonar doentes com tecnologia. (...) Não é substituir camas por ilusão organizativa. É substituir internamentos evitáveis por cuidados seguros, estruturados e clinicamente acompanhados.
Os doentes reais já cá estão: idosos, frágeis, multimórbidos, polimedicados e socialmente vulneráveis. O futuro não está para chegar. Está internado, está na urgência, está em casa com risco de readmissão e está nos cuidados primários à espera de coordenação.
A pergunta é simples: vamos continuar a depender da capacidade individual dos profissionais para compensar falhas do sistema ou vamos finalmente construir estruturas capazes de responder aos doentes que temos? (Carlos Santos Moreira, SOL)






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