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quinta-feira, 25 de junho de 2026

Esta É A Frase (117)

Deixar de organizar cuidados em função dos episódios e passar a organizá-los em função das pessoas. O doente complexo não precisa apenas de uma observação, de uma nota de alta ou de uma cama disponível. Precisa de um plano. Um Plano Individual de Cuidados Integrado.   

Há uma especialidade médica que não se limita a tratar doenças. Gere percursos, integra decisões, coordena equipas e tenta impedir que o doente se perca dentro do próprio hospital. Chama-se Medicina Interna
É por isso que a Medicina Interna deve deixar de ser vista apenas como um serviço de internamento e passar a ser encarada como uma verdadeira plataforma de integração clínica. O internamento é apenas uma etapa. O percurso pode começar na urgência, passar por uma unidade de decisão rápida, continuar num hospital de dia, prosseguir em hospitalização domiciliária e regressar aos cuidados primários.

O que garante continuidade não é o edifício. É o plano.

A Medicina Interna deve evoluir de especialidade centrada na cama para especialidade centrada no percurso do doente.

Vários países europeus já ensaiam esta viragem. Em Inglaterra, o Same Day Emergency Care permite avaliar, diagnosticar, tratar e reavaliar no próprio dia doentes que, de outro modo, poderiam acabar internados. Em linguagem hospitalar simples: muitos doentes não precisam de vários dias de cama; precisam de algumas horas bem organizadas, com decisão clínica, diagnóstico rápido, tratamento adequado e seguimento programado.

Outros podem ser tratados em hospital de dia ou receber cuidados hospitalares em casa. As virtual wards inglesas, o Hospital at Home escocês e a hospitalização domiciliária desenvolvida na Catalunha mostram que o futuro não passa necessariamente por construir mais hospital. Passa por construir melhor hospital: menos fragmentado, mais coordenado e mais próximo das pessoas.

Mas este modelo exige responsabilidade. Hospitalização domiciliária não é abandonar doentes com tecnologia. (...) Não é substituir camas por ilusão organizativa. É substituir internamentos evitáveis por cuidados seguros, estruturados e clinicamente acompanhados.

Os doentes reais já cá estão: idosos, frágeis, multimórbidos, polimedicados e socialmente vulneráveis. O futuro não está para chegar. Está internado, está na urgência, está em casa com risco de readmissão e está nos cuidados primários à espera de coordenação.

A pergunta é simples: vamos continuar a depender da capacidade individual dos profissionais para compensar falhas do sistema ou vamos finalmente construir estruturas capazes de responder aos doentes que temos?                    (Carlos Santos Moreira, SOL)

sábado, 13 de junho de 2026

Esta É A Frase (110)

Para que o SNS seja sustentável, os cuidados primários não podem funcionar como um mecanismo burocrático entre o utente e o hospital. Têm de ser centros clínicos de excelência, com capacidade real para resolver problemas, acompanhar pessoas, antecipar riscos e coordenar percursos.    (Carlos Santos Moreira, SOL)

Imagine-se uma pessoa idosa com diabetes, insuficiência cardíaca e mobilidade reduzida. Num curto espaço de tempo, passa pelo centro de saúde, pelo hospital, por várias consultas de especialidade e regressa repetidamente às urgências sempre que o seu estado se agrava. Quando tem alta, volta a casa com recomendações pouco claras, múltiplos medicamentos e sem saber exatamente quem contactar se piorar.

Este cenário tornou-se frequente. E nem sempre resulta apenas da falta de recursos. Resulta, muitas vezes, da forma como o sistema está organizado e da dificuldade em assegurar uma resposta contínua, próxima e responsabilizada.

Um centro de saúde de excelência deve ser capaz de acompanhar o doente crónico de forma longitudinal, identificar precocemente sinais de descompensação, rever terapêutica, intervir sobre fatores de risco, apoiar cuidadores, ativar respostas sociais e garantir seguimento após a alta hospitalar. Deve também conseguir distinguir o que pode ser resolvido localmente, o que exige apoio especializado programado e o que deve ser encaminhado [para os hospitais]

segunda-feira, 1 de junho de 2026

Esta É A Frase (102)

Não é um sistema que falha apesar dos seus defensores. É um sistema que falha por causa deles.         (João A. B. da Silva, OBSR)

O Serviço Nacional de Saúde está no fim do gradual. Em média, quatro médicos abandonam o SNS por dia. No último concurso de especialidade, meio ano depois de 1.350 médicos concluírem a sua formação, apenas 400 estavam colocados no SNS. O SNS recebe o dinheiro de todos independentemente do serviço que presta. Resiste à avaliação, porque medir é expor e expor compromete carreiras.  A paixão declarada pelo público funciona, na prática, como licença para o gerir mal. Gerir mal não tem custo. Levantar ondas tem. Toda a instituição pública gera com o tempo uma clientela que depende mais da sua existência do que do seu desempenho, e que a defende não apesar de a gerir mal, mas porque é assim que dela vive. Chama-se a isto politização da gestão, e não é um acidente do modelo. É o modelo.

O médico passa parte do dia transformado em dactilógrafo, sem secretariado, sem um sítio sequer onde se sentar a estudar entre doentes. Nenhum orçamento resolve isto. O que resolve é pagar bem a quem é bom, medir resultados, e deixar de nomear directores por filiação partidária. E nenhum financiamento, por generoso que seja, sobrevive à fuga de quem o justifica. Sem os médicos que formou, o Estado fica com edifícios. Vazios

O Canadá, país de matriz social-democrata com um sistema público de estruturalmente parecido com o nosso. Quando faltam médicos, as províncias canadianas vão buscá-los onde eles estão. Em 2025, a Colúmbia Britânica abriu uma via directa de licenciampleno a especialistas formados nos Estados Unidos, no Reino Unido, na Austrália e na Irlanda, sem os obrigar a repetir provas que já tinham feito. Recebeu 780 candidaturas de profissionais de saúde americanos em apenas dois meses, segundo comunicado oficial do governo provincial de Julho de 2025. O reflexo perante a escassez não foi proteger o lugar de quem já lá estava nem invocar a pureza do modelo. Foi ir ao mercado mundial buscar quem fizesse o trabalho. O Canadá ama menos o discurso do serviço público e protege muito mais a coisa pública em si.

quarta-feira, 13 de maio de 2026

O SNS

 “O Estado tem de se modernizar”. Esta frase tem sido muito repetida na política portuguesa nos últimos anos. Parece fazer sentido e parece inevitável. No entanto, há uma grande diferença entre modernizar o Estado e acabar com a sua função pública. O que está a acontecer no Serviço Nacional de Saúde (SNS) não é um caso isolado. O SNS tornou-se o exemplo mais claro de uma mudança maior. O Estado português está a deixar de ser uma garantia de direitos coletivos e a tornar-se um gestor de contratos, números e incentivos. Na saúde, esta mudança está a ser mais visível.      (LuisVidigal,DN)

Durante muitos anos, o SNS baseou-se numa ideia simples, em que o Estado garantiria um direito constitucional através de serviços públicos, profissionais com carreiras estáveis e uma lógica de continuidade. Hoje, o discurso mudou.

A ministra da Saúde usa palavras como “flexibilidade”, “incentivos”, “planeamento anual”, “digitalização” e “inteligência artificial”. Parecem palavras técnicas e neutras, mas escondem uma mudança profunda.

O SNS está a deixar de ser visto como uma equipa estável de profissionais. Está a ser gerido como uma plataforma flexível de trabalhadores. Os médicos são tratados como peças de um sistema de concorrência. O governo sabe que muitos médicos saem do SNS e voltam como prestadores de serviços, ganhando mais. Em vez de melhorar as carreiras e as condições de trabalho, o Estado adapta-se à lógica do mercado. Ou seja, o Estado já não luta contra a precariedade, está a geri-la

O trabalhador ideal do novo Estado não é alguém com uma carreira sólida e independente. É alguém sempre disponível, adaptável, vulnerável e submisso. Quando esta lógica entra no SNS, o resultado é grave. A saúde não é como uma aplicação de telemóvel ou um serviço de entregas. Precisa de equipas permanentes, relações duradouras, confiança entre profissionais e memória institucional.

terça-feira, 11 de novembro de 2025

A Frase (252)

Portugal tem novamente uma oportunidade de modernizar o setor da saúde com o apoio europeu – mas esta oportunidade só terá impacto se conseguirmos transformar investimento em resultados duradouros.     (Filipa Fixe, ECO

Nos últimos anos, os fundos europeus deixaram de ser apenas instrumentos de resposta em momentos de crise ou únicos. São uma das principais ferramentas de transformação estrutural, em Portugal e na União Europeia. Atualmente, o país dispõe de um Plano de Recuperação e Resiliência (PRR) de 22,2 mil milhões de euros1, em vigor até 2026, com a área da Saúde com mais de 1.700 milhões de euros. Este deve ser um investimento pensado para modernizar todo o ecossistema de saúde: desde a prevenção até ao tratamento, envolvendo o setor público, o privado, o social e as empresas. A saúde é, hoje, uma equação demasiado complexa para se resolver em silos.

Há sinais positivos. Nos últimos anos, assistimos à expansão de unidades de saúde, à digitalização de processos clínicos e à criação de novos hospitais/unidades de cuidados primários. Mas, se perguntarmos aos cidadãos, muitos dirão que pouco mudou.

Persistimos num ciclo: grandes investimentos, mas pouco impacto. E é precisamente isso que temos de quebrar. As melhorias efetivas no sistema de saúde não se fazem apenas com obras de construção ou projetos isolados, fazem-se com integração, planeamento e uma visão de médio/longo prazo, baseada em dados em métricas precisas para gerar resultados e confiança.  

sexta-feira, 7 de novembro de 2025

Frase (245)

Não há como fugir à evidência. Urge bom senso e responsabilidade política para um pacto de regime para a saúde. Chegou a hora de menos ‘partidarite’.   (Lígia Simões, JEconómico)

Montenegro alerta que os privados estão “bloqueados” como o SNS. E realça, uma vez mais, a necessidade de “otimizar recursos” para “melhorar o resultado financeiro” de um sistema de saúde cuja despesa passou, numa década, de oito mil milhões para 18 mil milhões de euros, sem ter havido uma correlação entre esta evolução e os serviços prestados e percecionados pelas pessoas.

Por outras palavras, assiste-se a uma degradação em plano inclinado do desempenho da variável mais importante: o acesso. Sinal de que o SNS começa a ficar ligado às máquinas. Reanimá-lo é urgente e exige um compromisso coletivo cimentado entre decisores políticos, sociedade civil e comunidade médica. Uma reforma eficaz do SNS tem de passar pela valorização e reforço dos recursos humanos, a par da modernização administrativa e gestão eficiente, e complementaridade entre os diversos setores.

Não há como fugir à evidência. Urge bom senso e responsabilidade política para um pacto de regime para a saúde. Chegou a hora de menos ‘partidarite’. Não é prudente acenar com soluções fáceis e respostas para amanhã quando os problemas são complexos. Fazê-lo é politicamente estúpido e condena o SNS a uma lenta agonia. 

sábado, 31 de maio de 2025

A Frase (137)

O escândalo do dermatologista dos 400 mil euros no Santa Maria põe o foco no maior problema do Serviço Nacional de Saúde: o regabofe na gestão. O custo da negligência prolongada não é apenas financeiro.   (Bruno Faria Lopes, JNegócios) 

O caso do dermatologista do Santa Maria que recebeu 400 mil euros por pequenas cirurgias fora do horário regular gerou o merecido escândalo - este é, afinal, o país em que 500 mil euros (os de Alexandra Reis na TAP) custaram a cabeça de vários governantes. Mas, tão ou mais ilustrativa do que a história do médico, é a reação do representante dos administradores hospitalares. Sobre o risco evidente implícito.

quarta-feira, 28 de maio de 2025

As Políticas De Saúde

 Em lugar de criar mastodontes nas salas do SNS como tem vindo a ser feito, importa sim criar unidades com escala gerível, avaliação transparente de resultados e exigências específicas de cooperação.

O Estado Mastodôntico e as Políticas da Saúde - Muito especialmente desde 2015, com os Governos de António Costa, as políticas adotadas para melhorar a gestão do SNS não têm apostado em:

  • Melhor formação dos gestores não se conhecendo ações sobre temas prioritários como a contratação pública, o planeamento ou o controle orçamental;
  • Na melhoria dos sistemas de informação que apoiam a gestão continuando a conhecer-se casos em que se desperdiçam muitas horas dos médicos em simples tarefas administrativas tais como passarem dados de um sistema para outro;
  • No controle orçamental das organizações onde o recente caso reportado pela TVI sobre Santa Maria parece sugerir que o simples controle dos pagamentos mensais a cada colaborador não existirá.
Pelo contrário, a grande aposta política tem sido a concentração de funções e responsabilidades de que é exemplo a instauração da gigantesca organização da Direção Executiva do SNS ou a própria formação de superstruturas agregando numerosas entidades as quais deram origem às ULS de que é exemplo a que integra Santa Maria e cujo orçamento anual se aproxima dos mil milhões de euros. 

Convém, aliás, recordar que os primeiros passos já tinham sido dados quando se diluíram os nosso hospitais públicos nos Centros Hospitalares com o argumento surreal de poderem assim fazer compras conjuntas (!).
2O Modelo de Coordenação Soviético e o SNS

Aliás, a tendência mastodôntica choca também com o imperativo da descentralização e de transferência de competências, direitos, deveres e orçamentos para o Poder Local tal como aliás foi oportunamente referido pelo anterior Bastonário da Ordem dos Médicos.

Em suma, se se pretender iniciar novo ciclo de políticas públicas para a Saúde e evitar o descontrole e o desperdício importará corrigir o erro atual que permite surgirem as dúvidas agora sentidas por todos com as notícias divulgadas pela TVI sobre a ULS de Santa Maria.

As principais e únicas justificações para esta dinâmica mastodôntica são:facilitar a coordenação entre as entidades agora fundidas; não duvidar dos seu controle graças aos sistemas inspetivos.

Ora considerar que a coordenação implica criar superstruturas era postulado do modelo da sociedade soviética e numerosos autores consideram esse erro como um dos principais fatores de colapso.

(excertos do texto de Luís Valadares Tavares, OBSR, ler aqui texto na íntegra)

quinta-feira, 24 de abril de 2025

A Frase (104)

Vivemos tempos de vertigem e imediatismo. Demitimo-nos das nossas responsabilidades e delegámos no outro a obrigação de fazer, de ser por nós. Perdemos as referências políticas, religiosas, sociais e familiares e, no meio do vazio, ficámos dependentes, cada vez mais dependentes. É uma carência de objectivos, uma paralisia de emoções, uma impossibilidade de se “ser” sem orientação.   (José Torres da Costa, OBSR)

O controlo que outrora se fazia por muros, grades e vigilância, está hoje disseminado nos nossos hábitos, “cliques” e rotinas. Não precisamos de ser vigiados, estamos voluntariamente expostos, e isso basta.Este é o mundje, um mundo pós-moderno e “narcisista”. É um mundo que alimentamos pelas redes sociais e pelos média. E num mundo ávido por informação e “notícias” sem qualidade. (...) Neste misto de voracidade e vertigem, esgotados que estão os temas da religião e virtude, é preciso uma nova “Fé”, a promessa de um novo “Éden”.
Temas como a saúde (a par de outros) tornaram-se combustível indispensável para a “fornalha” da comunicação. A sociedade torna-se hipermedicalizada e é-lhe difícil manter uma ponderação adequada entre o que faz sentido e um desnecessário tantas vezes contraproducente. Este novo mundo necessita de um equilíbrio que é difícil de obter, mas também é uma realidade à qual a Ordem dos Médicos anquilosada nunca se conseguiu adaptar.

NA perspetiva dos conteúdos, e apesar dos avanços e reconhecimentos internacionais, a comunicação social olha na saúde demasiadas vezes pela exceção, dando-lhe um destaque e notoriedade que suspeito assistir a agendas de inocência duvidosa.

Com ou sem intencionalidade, há uma certa perversão na forma como o nosso sistema de saúde é dado a conhecer. Um sistema que apesar dos defeitos e agressões a todos deveria orgulhar.

Se existem noticiários têm de existir notícias e nesta dependência o critério da escolha não é a notícia em si, mas o impacto que tem. Seria tranquilizador e sedativo um noticiário que um dia destes dissesse – “hoje não há notícias. Não há nada de novo!”. Pura e simplesmente não acontece!

Portugal tem uma ferência de investigação como a Champalimaud Foundation ou o Instituto de Medicina Molecular para além de importantes investimentos em tecnologia digital na área da medicina (telemedicina, inteligência artificial, registos eletrónicos de saúde) e a criação da recente licenciatura em Saúde Digital e Inovação Biomédica (SauD InoB) da FMUP. Por tudo isto, e por uma alta relação qualidade / preço, Portugal é classificado no top dos rankings da OMS e da Euro Health Consumer Index .

Em muitas áreas da saúde surgiram plataformas de recolha de dados que utilizam modelos de aprendizagem profunda que permitem um melhor conhecimento da saúde dos portugueses para além de serem ferramentas indispensáveis para a identificação precisa de ganhos em saúde. (...)
Com ou sem intencionalidade, há uma certa perversão na forma como o nosso sistema de saúde é dado a conhecer. Um sistema que apesar dos defeitos e agressões a todos deveria orgulhar.

quarta-feira, 14 de agosto de 2024

A Frase (202)

É bem evidente que a saúde precisa de um pacto de regime. Se há área que deve ser poupada à guerrilha partidária é esta, porque joga com o que mais fundo há na humanidade.  (Carlos Rodrigues, CM)

Como é uma área claramente impactante para os portugueses, será sempre muito difícil aos partidos fugirem à tentação de fazer pequena mercearia de promessas, cobranças e outros atos eleitoralmente motivados.  (...)

Basta observar a satisfação que os dirigentes do PS encontram no facto de terem conseguido colocar a crise das urgências no meio do debate político em pleno mês de agosto para perceber como a tentação da chicana e da pequena guerrilha chega a todas as matérias, a começar pelas chamadas matérias de regime. 

segunda-feira, 12 de agosto de 2024

A Frase (201)

O SNS para a política mais ideológica é uma espécie de Ministério da Imortalidade. Esta ideia transforma o Sistema num enorme labirinto kafkiano onde as responsabilidades se diluem em cateteres de soro espetados em veias esquecidas em salas de espera pelo país. O SNS está transformado numa enorme repartição pública, gerido com a insensibilidade burocrática das ditaduras, suportado por horas extraordinárias, assente em listas de espera. Listas de espera alimentadas pelo tempo da vida dos outros.      (Carlos Marques de Almeida, ECO)

No Portugal contemporâneo não existe um SNS universal e comum. As diligências da “Saúde Pública” estão divididas em três sistemas informais. Os três sistemas não são complementares. Os três sistemas estão ligados pela lógica do confronto e pela lógica da extracção de rendas. O país tem um Sistema de Saúde que se motiva pela promoção do lucro. O país tem um Sistema de Saúde que se orienta pelo cumprimento de um direito social. O país tem um Sistema de Saúde que segue as necessidades básicas da política. Em todos estes Sistemas há os conflitos que têm de haver e os sofrimentos que são inevitáveis. O que os portugueses perdem é uma aspiração essencial ligada à vida democrática em comum.


Nota: Como escreve António Barreto (Jacarandá): Tudo era previsível. E para tudo havia recursos. O que faltou? O que falhou? Por que razão PS e PSD, ao longo de décadas de governo, não souberam gerir, não conseguiram corrigir, falharam as previsões, descuraram o sistema e deixaram o SNS entregue ao acaso e aos profissionais que, contra o vento, tentam fazer muito mais do que os seus deveres?