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quarta-feira, 12 de outubro de 2022

Epigrama


Bom é ser árvore, vento:
sua grandeza inconsciente.
E não pensar, não temer.
Ser, apenas. Altamente.

Permanecer uno e sempre
só alheio à própria sorte.
Com o mesmo rosto tranquilo
diante da vida ou da morte.

(Marly de Oliveira
de Cerco da Primavera)

terça-feira, 11 de outubro de 2022

Notícias Ao Fim Da Tarde

A Frase (227)

Medidas que se limitem a pretender manter o poder de compra acabarão por prolongar e aprofundar os custos para todos e sobretudo para os economicamente mais débeis.  (Teodora Cardoso, J Negócios)

Como geralmente acontece, os factores responsáveis por uma crise não são os problemas que a definem, mas sim as políticas que a antecederam e desvalorizaram os riscos que estavam a acumular. No caso actual, estamos perante um surto de inflação que teve origem numa diversidade de políticas que ilustram bem essa asserção. Foi, por um lado, a opção dos países industrializados ao permitir concentrar em produtores externos  (...)

Correspondências


A natureza é um templo augusto, singular,
Que a gente ouve exprimir em língua misteriosa;
Um bosque simbolista onde a árvore frondosa
Vê passar os mortais, e segue-os com o olhar.

Como distintos sons que ao longe vão perder-se,
Formando uma só voz, de uma rara unidade,
Tem vasta como a noite a claridade,
Sons, perfumes e cor logram corresponder-se

Há perfumes subtis de carnes virginais,
Doces como o oboé, verdes como o alecrim,
E outros, de corrupção, ricos e triunfais

Como o âmbar e o musgo, o incenso e o benjoim,
Entoando o louvor dos arroubos ideais,
Com a larga expansão das notas d'um clarim.

(Charles Baudelaire)

segunda-feira, 10 de outubro de 2022

Notícias Ao Fim Da Tarde

A Frase (226)

Um ditado popular ensina-nos que quem cala consente. Um adágio que, adaptado ao comportamento do Presidente da República, aponta no sentido inverso: com ele, quem fala consente. E António Costa tem beneficiado deste consentimento. (Rodrigo Saraiva, DN

Marcelo Rebelo de Sousa insiste em contrariar quem nele votou com a esperança de que funcionasse como contrapeso ao poder tentacular do PS. Eleitores que se enganaram redondamente. O chefe de Estado fala, fala, fala e já poucos o escutam. Porque sabem que o resultado é sempre o mesmo: no essencial, Marcelo nunca se demarca do governo.

O primeiro-ministro, com ele, pode dormir descansado. E até fazer graçolas, como aconteceu no 5 de Outubro, quando António Costa se permitiu fazer comparações entre ele próprio e o chefe de Estado aos jornalistas: "Nós não falamos. Nós agimos, fazemos, resolvemos. É essa a função fundamental do governo." Como se o Presidente fosse figura decorativa.

Em boa verdade, Marcelo Rebelo de Sousa tem feito por merecer este sarcasmo. Porque, no essencial, transformou o Palácio de Belém numa câmara de ressonância do palacete de São Bento. (continuar a ler)

O Seu Quê De Loucura No Amor

 Há sempre o seu quê de loucura no amor; mas também há sempre o seu quê de razão na loucura.

(Friedrich Wilhelm Nietzsche)

domingo, 9 de outubro de 2022

Notícias Ao Fim Da Tarde

A Frase (225)

O estado do governo é filho de várias crises, mas a sua mãe é só uma: más decisões. (Sebastião Bugalho, DN)

Em 2020, com a pandemia e o PRR como argumento, António Costa decidiu flexibilizar o código de contratação pública. Volvidos dois anos, a execução do PRR é miserável e o investimento público está abaixo do PIB pela primeira vez desde a troika. Foi uma decisão facilitista, amoral, sem o efeito pretendido e com consequências políticas tóxicas, de que as buscas na Gomes Teixeira foram uma ponta de icebergue. Portugal é demasiado pobre, pequeno e paroquial para não se proteger de incompatibilidades. Há dois anos, o primeiro-ministro abriu uma caixa de Pandora. Agora, quando mais precisava de credibilidade, vai ver Pandora levar-lha.

A Noite


Vinte e um. Noite. Segunda-feira.
A silhueta da cidade na neblina.
Algum desocupado inventou
essa história de que há amor no mundo.
E por preguiça ou por tédio,
todos acreditaram nele e assim viveram:
esperando encontros, temendo ruturas
e cantando canções de amor.
Mas a outros será revelado o segredo
e sobre estes recairá o silêncio...
Eu tropecei nele casualmente e, desde então,
sinto-me como se estivesse doente.

(1917, Petersburgo
Anna Akhmátova
(Anna Andreyevna Gorenko, Rússia 1889-1966)