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quarta-feira, 16 de outubro de 2024

Notícias Ao Fim Da Tarde

A Frase (259)

O joio desconcentra-me. Os dias andam exigentes, não estão para distrações. Fiz um passeio no parque, atenta à observação deste tempo político: lembrando-me de todos os quadros da vida portuguesa de há mais de cinquenta anos, talvez não me lembre de uma simultaneidade tão tóxica de ingredientes igual à de hoje. Como ocorre com as infecções do organismo, o ar está doente. (Maria João Avillez, OBSR)

Infectado de irracionalidade e a política detesta-a (corre sempre mal); de escorregadia destemperança e a política precisa do contrário; de má-fé e a política não costuma ser complacente; de imaturidade e a política dispensa-a; de indecisos zangados ou vendilhões do templo, mas a política nunca deixa de mandar a factura (normalmente alta).

Sucede que o que aí está, não pode continuar a estar. Não há um português – nem os “interessados” – que suporte um minuto mais “disto”. Dançaram-se demasiadas valsas no verão, o outono continuou com polcas desastradas mas ambas, valsas e polcas, já não podem mais ser dançadas. Basta! Não há passeio no parque que varra este ar de suspeita e acusação – de torpeza para ser mais claro – que sopra em ventos cruzados. Sem propósito mas com consequência, porque em vez de política há birras, e no lugar do critério está a desconfiança.

E em vez de país, há cálculo. PS e Chega irmanam-se no cálculo e na ambição do poder: o primeiro no seu vício, oito anos é muito ano; o outro, na sua ânsia.
 
Não há um português que suporte um minuto mais “disto”. Dançaram-se demasiadas valsas no verão, o outono continuou com polcas desastradas mas ambas, valsas e polcas, já não podem mais ser dançadas.

Ouvir Com Os Olhos É Do Amor O Fado


Como no palco o ator que é imperfeito
Faz mal o seu papel só por temor,
Ou quem, por ter repleto de ódio o peito
Vê o coração quebrar-se num tremor,

Em mim, por timidez, fica omitido
O rito mais solene da paixão;
E o meu amor eu vejo enfraquecido,
Vergado pela própria dimensão.

Seja meu livro então minha eloquência,
Arauto mudo do que diz meu peito,
Que implora amor e busca recompensa

Mais que a língua que mais o tenha feito.
Saiba ler o que escreve o amor calado:
Ouvir com os olhos é do amor o fado.

(William Shakespeare)

terça-feira, 15 de outubro de 2024

Notícias Ao Fim Da Tarde

A Frase (258)

PNS quer o partido a falar a uma só voz porque só um coro tão robusto consegue abafar o apito do amolador que já estacionou a bicicleta no largo do Rato.  (José Diogo Quintela, OBSR)

Para quem está sempre a avisar para o perigo que é o Chega, Pedro Nuno Santos, com este desejo de unanimidade incontestada, parece querer ser o André Ventura do PS.  

Agora, PNS está a ser demasiado exigente com os seus críticos. Pretender que os correligionários não se desviem do pensamento do líder é um problema, na medida em que para isso é preciso primeiro determinar qual é afinal o pensamento do líder. Decida isso e depois logo se vê.

O Eterno Retorno


De forma simples, a ideia do eterno retorno sugere que tudo o que aconteceu, está acontecendo e acontecerá novamente, em ciclos eternos.

Explicando melhor.

Nietzsche propôs esse conceito como um desafio profundo à maneira como as pessoas vivenciam suas vidas e enfrentam a ideia da morte.

A pergunta fundamental é:

“Você viveria sua vida mais uma vez e outra, e assim eternamente?”.

Nietzsche acreditava que viver cada momento como se fosse repetido infinitamente poderia levar a uma apreciação mais profunda e intensa da existência.

Por isso, a aceitação do eterno retorno, para Nietzsche, é uma medida do amor à vida.

Por outro lado, a rejeição dessa ideia poderia levar a uma vida mais superficial e desprovida de significado.

O conceito, portanto, visa provocar uma reflexão profunda sobre como vivemos nossas vidas e qual significado atribuímos a cada experiência.

(Friedrich Nietzsche)

segunda-feira, 14 de outubro de 2024

Saiba Como Vai Este País

O vício da política portuguesa é considerar sempre o Orçamento como sendo do partido do Governo, logo só pode servir a clientela do partido do Governo. Eis uma visão sectária onde sobra desonestidade intelectual e falta um entendimento global e concreto do país. Todos os partidos sonham em fazer um Orçamento para o seu partido. Até os partidos que estão sempre em minoria absoluta, mas que são os verdadeiros representantes do país perfeito. 

O caso do PS fica como o exemplo superlativo de que a democracia é o melhor regime, mas que só a democracia do PS é a mais verdadeira e pura democracia desenhada para Portugal. No Orçamento, o PS anda sempre em processo de correcção em curso, estabelecendo linhas vermelhas que afinal são linhas verdes desenhadas por políticos daltónicos. (...) 

A incultura política e arrogância de um PS que se apresenta como social e politicamente hegemónico não têm correspondência na realidade do país. O PS é vítima do preconceito de que só a esquerda tem consciência social e sabe governar para o país. Perdido no seu labirinto, o PS tanto pode viabilizar como chumbar o Orçamento. Por agora, vai estudar para tomar uma posição em consciência e no fim rebentar o Parlamento com uma abstenção violenta.

O caso do Chega fica como o exemplo paradoxal de um partido que odeia o sistema mas não suporta ficar fora dos arranjos do sistema. Primeiro, anseia por uma maioria de direita para purgar Portugal do socialismo. Depois, afirma a sua identidade radical recusando qualquer entendimento com as forças de direita que não alinham pelas posições do Chega. 

E quais são as posições do Chega? São todas as que forem necessárias no momento mais conveniente. Aliás, as posições políticas do Chega sobre o Orçamento e afins perfazem um volume de páginas que supera, quer na riqueza do enredo, quer na complexidade das personagens, o programa político do partido. 

O Chega não é bem um partido, será mais uma “claque de futebol” que segue o megafone do líder. E o megafone do líder não distingue a verdade da mentira nem a coerência do oportunismo. 

Para o Chega o propósito é a queda da República. Para o Chega o objectivo é o caos da confusão interna e externa, pois só de uma profunda confusão um partido que se comporta, tanto como um “coro no altar”, tanto como um “gangue na bancada”, poderá aspirar a governar Portugal. Na retórica do Chega é visível a mediocridade política susceptível de adaptar a linguagem universal da mística e da mentira. (...) Chega promete chumbar o Orçamento com a violência de uma Revolução.  (...) Sobra o patriotismo do Chega na contemplação de uma vitória que afinal tem o brilho de uma derrota.

A circunstância do Governo é o estudo de caso de um realismo político sonso. Em minoria absoluta, na posse da inteligência rural que guia os portugueses desconfiados, com a timidez silenciosa de quem passa sempre nos intervalos, o Governo transforma-se para além do imaginável. Mas domina a imaginação política do Orçamento. Não vale a pena antecipar hipóteses fúteis. Quem tem coragem para umas eleições antecipadas?

(Excertos do texto de Carlos Marques de Almeida, ECO)

Notícias Ao Fim Da Tarde

A Frase (257)

Ventura mente ao dizer que Montenegro lhe propôs um acordo ou que o fez mesmo. Pedro Nuno mente ao dizer que tem dúvidas sobre se esse acordo existiu, ou não. Todos vemos que ambos estão a mentir e a alimentar um mero jogo de palavras, feitas puro palavreado. Mas ambos continuarão a alimentar um assunto que não existe. Não haverá adultos na sala do Chega e do PS? Seria boa ideia acabar com criancices, para irmos às coisas sérias.  (José Ribeiro e Castro, OBSR)

É mau que, nesta legislatura, o Chega não conseguisse ascender à maturidade própria de um partido parlamentar com 50 deputados. É ainda pior que esta liderança do PS esteja a conduzir um partido histórico para o nível de irresponsabilidade do Chega.

Fui, Indeciso Na Bruma

Flui, indeciso na bruma,
Mais do que a bruma indeciso,
Um ser que é coisa a achar
E a quem nada é preciso.

Quer somente consistir
No nada que o cerca ao ser,
Um começo de existir
Que acabou antes de o Ter.

É o sentido que existe
Na aragem que mal se sente
E cuja essência consiste

Em passar incertamente.

(Fernando Pessoa)