Há dentro de nós a exigência absoluta de sermos eternos e a certeza de o não sermos. O absurdo é a centelha do contacto destes dois opostos.Vergíleo Ferreira
Considera com frequência a rapidez com que se passam e desaparecem os seres e os acontecimentos. A substância, como um rio, está em perpétuo fluir, as forças em perpétuas mudanças, as cuasas a modificarem-se de mil maneiras; apenas há aí uma coisa estável; e abre-se-nos aos pés o abismo infinito do passado e do futuro onde tudo se some. Como não há-de ser louco o homem que, neste meio, se incha ou se encrespa ou se lamenta, como se qualquer coisa o tivesse perturbado durante um tempo que se visse, um tempo considerável?
Se o normal é dizer que os beneficiários da ADSE têm mais regalias que os restantes utentes do Serviço Nacional de Saúde (SNS) no acesso aos cuidados de saúde, a verdade é que há situações em que ter ADSE só prejudica.
Teria sem sombra de hesitação ido para a rua, para todas as ruas, comungando do mesmo luto e da mesma raiva, enrolada na bandeira da “diferença” da minha civilização: quando certas caricaturas ou atitudes versando a religião católica me incomodam não agarro numa arma e quando delas discordo, não a disparo. Usufruindo da minha própria liberdade de expressão limito-me a sinalizar – ou não – desconforto ou discordância. Mas a barbárie é mais lesta, dispara, exclui e aniquila. Preparemo-nos para a incerteza, forma superior de aflição. E da manifestação de ontem em Paris retenhamos o que deve ser retido: a extrema “eficácia” política do atentado contra o Charlie Hebdo, teve resposta -hipócrita porventura em algum sentido – mas igualmente eficaz. Mas, sim, preparemo-nos para a incerteza.
Foram 200 metros de marcha. Foram 20 minutos expostos, envolvidos por um cordão de segurança. Os líderes mundiais que se juntaram a François Hollande em Paris foram corajosos. Mas só podem ter sentido na pele a insegurança de uma séria ameaça de guerra civil na Europa. Paris foi a capital do mundo, Paris foi a imagem da vontade de milhões de pessoas unir quem é diferente. Mas Paris foi também o retrato da insegurança. Já vivemos em liberdade condicionada.![]() |
| Foto divulgada pelo Observador |
Os novos bárbaros adquirem treino militar nos nossos territórios, e nas horas vagas circulam entre nós livremente, sem que os possamos reconhecer. Restrições razoáveis à imigração são claramente insuficientes para os detectar e deter.
O nosso destino colectivo será o da tolerância e do respeito mútuo (ou não será nenhum). Assim, a guerra entre a tolerância e a intolerância tem, desde sempre, a primeira delas como vencedora garantida. Até lá, os que caírem porque ousaram dizer ou escrever o que lhes vai na cabeça, serão os mártires do nosso tempo.