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sexta-feira, 2 de março de 2018

Ilumina-se A Igreja Por Dentro Da Chuva


Ilumina-se a igreja por dentro da chuva deste dia, 
E cada vela que se acende é mais chuva a bater na vidraça... 

Alegra-me ouvir a chuva porque ela é o templo estar aceso, 
E as vidraças da igreja vistas de fora são o som da chuva ouvido por dentro ... 

O esplendor do altar-mor é o eu não poder quase ver os montes 
Através da chuva que é ouro tão solene na toalha do altar... 

Soa o canto do coro, latino e vento a sacudir-me a vidraça 
E sente-se chiar a água no fato de haver coro... 

A missa é um automóvel que passa 
Através dos fiéis que se ajoelham em hoje ser um dia triste... 
Súbito vento sacode em esplendor maior 
A festa da catedral e o ruído da chuva absorve tudo 
Até só se ouvir a voz do padre água perder-se ao longe 
Com o som de rodas de automóvel... 

E apagam-se as luzes da igreja 
Na chuva que cessa ... 

Fernando Pessoa

quinta-feira, 1 de março de 2018

Notícias Soltas

Via De Acesso À Praia Do Portinho Da Arrábida Parcialmente Destruída Devido Ao Temporal

A via de acesso à praia do Portinho da Arrábida ficou parcialmente destruída devido ao temporal que se fez sentir. Condutas de abastecimento de água e de energia elétrica ficaram expostas.

O acesso à praia do Creiro (mais conhecida como Portinho da Arrábida) abateu durante a noite de quarta-feira na sequência do temporal que se fez sentir. A situação é descrita pelo presidente do Clube da Arrábida, Pedro Soares Vieira, que ao Observador diz tratar-se de “um muro de proteção que também funciona como caminho de acesso à praia”.
O acesso, continua, separa o mar das casas (essencialmente de veraneio) e a parte atingida pela tempestade desta noite inviabiliza o acesso ao Restaurante Farol, assegura o presidente. “Além de o muro ter abatido, ficaram à mostra as condutas elétricas e as condutas da água”.(saber mais aqui)

Assim Acontece: O Primeiro-ministro Está Valorizadíssimo

O primeiro-ministro está valorizadíssimo por se encontrar na confluência onde desaguam as esquerdas e as direitas e decidiu utilizar esse ativo, mas não para governar. Preferiu gerir em benefício próprio a sua cotação de mercado junto dos partidos políticos, das forças sociais, do Presidente Marcelo e, sobretudo, dos portugueses que o têm como o referencial de equilíbrio.

Sentado na sua cadeira de sonho, Costa tem hoje o PS totalmente domesticado, conta com o beneplácito de Marcelo e tem o apoio do Bloco e do PCP, que se limitam a rosnar para obter uns cobres para os seus clientes em troca da estabilidade política e da paz social. Ainda por cima tocou-lhe agora um PSD mais disponível para um diálogo construtivo e patriótico, o que lhe permite uma gestão quase completa do leque político. Sobra o CDS de Cristas, que aproveita para se afirmar.

Com uma conjuntura tão boa, outro primeiro-ministro aproveitaria para fazer coisas verdadeiramente importantes e necessárias, como mandar o Estado pagar a tempo a quem deve para diminuir o valor das faturas, que são sempre agravadas por quem tem de esperar mais de um ano para receber. Poderia ainda tentar salvar o Serviço Nacional de Saúde, melhorar a qualidade da segurança social, suprir as falhas da justiça, diminuir a poluição, tentar mudar o sistema político ou investir na dessalinização para evitar a seca que nos vai matar. Mas não. Costa prefere ir falando com este e com aquele e esperar que chova muito…

( excertos do artigo de Eduardo Oliveira e Silva, Ji)

quarta-feira, 28 de fevereiro de 2018

Esta É A Frase

Quando o principal partido da oposição sente necessidade de, no Parlamento, durante um debate com o primeiro-ministro, recordar que é oposição (mas “construtiva”) é porque algo está a correr muito mal. Contudo foi precisamente isso que sucedeu na estreia de Fernando Negrão como líder parlamentar do PSD no seu primeiro debate quinzenal. Um debate onde fez papel de ovelha dócil a caminho do matadouro.

José Manuel Fernandes, OBSR

Notícias Soltas

Quando Uma Tragédia Se Abate Sobre Vastas Regiões Do País, O Mínimo Que Se pode Exigir É Uma Planificação Que Evite A Repetição E Que Ao Mesmo Tempo Criem As condições Para A Melhoria De Vida Das Populações Afetadas

Chegados ao final do mês de fevereiro, quando a primavera já se anuncia, depois de um Orçamento do Estado para 2018 que nada fez para recuperar a atividade económica destas populações martirizadas, a que assistimos agora em termos de medidas por parte do Estado para relançar a confiança das populações mais afetadas ?
Num país onde não se tomaram medidas para escoar os milhões de toneladas de biomassa semiardida que continuam espalhadas por vastas zonas do Portugal interior, o que se vai fazer a estas novas quantidades de biomassa que o governo pretende agora que seja cortada sem ter antes criado qualquer tipo de incentivo ao seu necessário escoamento?
Nem isentando de IVA a biomassa para queima, nem permitindo a dedução em IRS das despesas com o corte da biomassa, nem reduzindo o IRC das empresas destas regiões, nem criando circuitos logísticos e parques onde esta biomassa possa ser armazenada com um mínimo de segurança.
E não esqueçamos que a biomassa, depois de cortada, seca mais depressa do que se permanecer em ciclo vegetativo - o que aumenta exponencialmente o risco de incêndio já no próximo verão.
E como as queimadas são proibidas a partir de finais do mês de abril, e infelizmente as centrais de biomassa são ainda muito poucas, todo este esforço dos pequenos proprietários, todas estas multas anunciadas, toda esta desorganização adicional do tecido produtivo destes 40 mil quilómetros quadrados de território servirão apenas para criar as condições para que tragédias ainda maiores possam vir a ocorrer.
Ou seja, será o massacre dos já massacrados pela calamidade dos fogos do ano passado.
De facto, a democracia portuguesa está muito longe de ter a qualidade que devia. 

(excertos do artigo de Clemente Pedro Nunes,Ji)

Os Aplausos Podem Exprimir ...

"No princípio de um discurso os aplausos exprimem fé; a meio, esperança, e no final, caridade." 

Noel Clarasó 

terça-feira, 27 de fevereiro de 2018

Notícias Soltas (act.)

Brasão Das Armas Da Cidade De Évora Ou Pedra Antiga Que Conta Uma História Da Fundação Da Cidade

No Museu Nacional Frei Manuel do Cenáculo, piso térreo, não muito longe da lápide da fundação da cidade pelos árabes, uma epígrafe em escrita cúfica e sem imagens, estão expostas duas pedras com a representação de uma personagem a cavalo e a representação de duas cabeças atribuídas aos séculos XIV e XV, já o final da Idade Média. 

Estas mesmas pedras inspiraram mais tarde, no final do século XIX e nos anos 30 do século XX a fundamentação da imagem do brasão das armas da cidade de Évora. Brasão e Armas da cidade são palavras datadas, cheias de patine, encarregadas e pensadas para educar e transmitir, sob a forma de bonecos, uma história de glorificação da cidade, e que as várias representações e interpretações trouxeram até nós como a sendo a que representa esse episódio do Giraldo Sem Pavor, que através do ludíbrio do amor, conseguiu tomar a cidade de Évora das mãos de uma mulher. 

São duas peças escultóricas que representam uma história da cidade, celebrada e homenageada pela propaganda medieval em Évora.
A cidade de Évora em que hoje vivemos é ainda o resultado da usurpação e ocupação de um território herdeiro de civilizações antigas e já definido nas paisagens neolíticas e paleolíticas, como o atesta a Gruta do Escoural. De uma tão ancestral ocupação do território, aqui fixado na paisagem que lhe dá identidade e condiciona a utilização, hoje só recordamos de cor e em forma de lenga-lenga, a história pouco honrosa de um líder de um bando que rouba a uma mulher o poder de uma cidade.
O poder, sempre feudal destas terras, e uma visão localista, perpetuaram a utilização desta imagem até aos dias de hoje. A última vez que a cidade, já de homens livres de todas as opressões, em 1983, se pronunciou sobre a imagem e heráldica da cidade reconfirmou a sangrenta representação de uma traição como feito representativo da cidade. Imagem que foi precipitadamente adotada, da que se representa na frente da Sé, e que nos anos 30 do século passado e sem grande interesse local, se decidiu como imagem representativa de cidade em resposta a um despacho de Lisboa. A sua revisão e estudo desapaixonado vêm sendo feita pelos sucessivos presidentes de Câmara da cidade que a reconhecem.
E ainda que nos esteja vincado na cultura, marcado nos genes, esta terra e as vivências do mediterrâneo foram à força absorvidas pelo norte cristão, de príncipes ansiosos que aqui só viram largueza e monotonia sem interesse e por isso foram logo doadas a donos de terra e de homens como as ordens militares religiosas e àquele senhor de Portel de que ainda hoje por aí há filhos, como também os há dos mediterrâneos que sempre aqui estiveram.
Muito houve que destruir, arrasar, apagar para que a nova noção de nação pudesse pegar e a seguir à destruição construiu-se uma nova imagem, novos heróis, por pouco recomendáveis que fossem como este Giraldo. Estes dois objetos são uma representação, um instrumento de comunicação de uma história que se quis contar, porque era violenta, bárbara e popular e serviu a quem a gerou lá atrás no tempo. Hoje por desinteresse, falta de paixão, foi aceite como sendo o mais nobre feito da cidade. Pode estar num Museu, petrificada, onde a memória e património tem lugar e onde a sua observação e fruição promovem o deleite de quem gostar, o pensamento, a crítica. Mas também pode, com coragem, ser revisto, alterado e pensado numa apaixonada reflexão da cidade sobre o assunto: que imagem é a que temos, queremos ter e transmitir da cidade de Évora.
O Museu Nacional Frei Manuel do Cenáculo tem entrada gratuita aos domingos e feriados até às 14h para todos os cidadãos residentes em território nacional. O texto e fotografia são da exclusiva responsabilidade da autora, Carla Magro Dias, publicado na Tribuna Alentejo.