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quarta-feira, 7 de fevereiro de 2024

Um Sorriso ...


Vinha caindo a tarde. Era um poente de agosto.
A sombra já enoitava as moutas. A umidade
Aveludava o musgo. E tanta suavidade
Havia, de fazer chorar nesse sol-posto.

A viração do oceano acariciava o rosto
Como incorpóreas mãos. Fosse mágoa ou saudade,
Tu olhavas, sem ver, os vales e a cidade.
- Foi então que senti sorrir o meu desgosto…

Ao fundo o mar batia a crista dos escolhos…
Depois o céu… e mar e céus azuis: dir-se-ia
Prolongarem a cor ingênua de teus olhos…

A paisagem ficou espiritualizada.
Tinha adquirido uma alma. E uma nova poesia
Desceu do céu, subiu do mar, cantou na estrada…

(Manuel Bandeira)

terça-feira, 6 de fevereiro de 2024

Notícias Ao Fim Da Tarde

A Frase (29)

Chega é outra coisa que ninguém sabe como contrariar na habitual placidez de uma democracia instalada e preguiçosa.   (Carlos Marques de Almeida, ECO)

Ventura é a sombra que ilumina a crise da democracia. Ventura é a luz que ensombra o grande consenso democrático. Um tribuno por excelência, um demagogo por vocação, um agitador por devoção, a democracia portuguesa não sabe o que fazer com o fenómeno Chega. Não é o discurso do medo nem a diabolização do partido que o vai parar. Não é a utilização de uma suposta superioridade moral da democracia que será o antídoto para o Chega.

O Chega é outra coisa que ninguém sabe como contrariar na habitual placidez de uma democracia instalada e preguiçosa. Talvez porque no estádio actual da democracia portuguesa Ventura é a hipótese política que conhece finalmente a sua hora. A aventura do Chega é um fenómeno que já não pode ser contido por “cordões sanitários”. Quando 21% dos portugueses está na disposição de votar Ventura, o Chega é parte da paisagem política portuguesa. E não é um regresso ao passado, mas o futuro pós-democrático em registo pluralista limitado. (continuar a ler

Eu Nasci Pra Ver O Mundo ...


 Eu nasci pra ver o mundo,
explorar novas culturas,
Viajar pelas estrelas e descansar ao amanhecer...
Voces podem até tentar me manter,
nesse pequeno e seguro mundinho cultivado por vocês,
mais eu quero os perigos e as belezas desse gigante universo!

(Alvaro Felix)

segunda-feira, 5 de fevereiro de 2024

Notícias Ao Fim Da Tarde

A Frase (28)

Açores - E este laboratório é mesmo um ensaio geral, quer para as legislativas, quer para os argumentos da campanha. Neste caso, quem está entalado, não é o PSD, mas sim o PS. E o Chega.       (Filipe Luís, Visão)

O PSD tem aqui a oportunidade, muito confortável, de testar a concorrência à direita e à esquerda, sem qualquer necessidade de se aliar ao Chega – mesmo que precise dos votos dos deputados deste partido para ter maioria na Assembleia Regional. Basta a Bolieiro formar governo, apresentá-lo nessa Assembleia e esperar. Compete, depois, ao Chega decidir se quer deitar abaixo um governo de direita, sem ter nada em troca para dar. E ao PS caberá decidir se quer deitar abaixo esse mesmo governo, sem ter, também, qualquer alternativa ou possibilidade de formar um excutivo – e fazendo, assim, um favor ao Chega, que se tornaria então sim, indispensável para uma solução governativa.

A Hipocrisia


A hipocrisia, suprema perversão moral, é o charco podre e dormente que impregna
a atmosfera de miasmas mortíferos e que salteia o homem no meio de paisagens ridentes:
é o réptil que se arrasta por entre as flores e morde a vítima descuidada.

(Herculano, Alexandre)

domingo, 4 de fevereiro de 2024

Notícias Ao Fim Da Tarde

Para Pensar !

O que está a correr mal? E porquê? Num país que ainda há pouco tempo gozava de estabilidade, cooperação institucional, algum crescimento económico, contas certas e paz social, de repente, tudo se estragou. Nas ruas, ouvem-se ruídos e rumores de manifestação. Nos serviços públicos, há espera e ineficiência. Na justiça, há atraso. Na política, há corrupção. Na sociedade, há desigualdade. No espaço público, há descontentamento. Que se passa? São as elites? Será o povo? É a crise mundial? Será a guerra?  (António Barreto, Jacarandá)

Uma boa conspiração poupa a inteligência e dispensa o estudo dos factos e das causas. A conspiração da situação actual é, para muitos, simples e clara. O Presidente quis liquidar o governo socialista. O governo e o seu partido pretenderam liquidar o Presidente. Maçonaria e católicos entraram na dança. Os barões do PSD zangaram-se mais uma vez. Os minoritários moderados do PS querem já macular os primeiros passos dos novos dirigentes. Procuradores e juízes digladiam-se, mas, em conjunto, atiram-se aos políticos. Os 31 crimes de Sócrates passaram a 6 e são agora 22, o que nos permite avaliar o rigor e a validade das acusações. (...)

Ao lado das causas profundas, há evidentemente as causas imediatas. E estas residem em grande parte na deficiente gestão do serviço público, das instituições e dos grandes serviços. (...)

Três dissoluções de parlamentos e assembleias legislativas. Três governos demitidos. Prisão ou acusação de vários políticos de elevada importância. Milhares de polícias na rua a manifestar. Órgãos de soberania à bulha.

Onde estão as causas? Chuva não é certamente. É gente, com certeza.

Saiba Para Onde Caminha Este País

A Comissão Técnica Independente quer criar a ficção da defesa do interesse público contra os interesses privados, mas acaba a apoiar o aeroporto mais caro de todos, com maior dano ambiental e o mais demorado para entrar em funcionamento. 

A estratégia tem, como cereja no topo do bolo, este paradoxo: quando chegamos ao momento de encaixar o comboio rápido em Alcochete, vemos que há que desviar a alta velocidade do Porto-Lisboa do seu traçado previsto para, através de uma nova ponte no Carregado, levá-lo pelo lado nascente do Tejo até ao aeroporto em Canha (bem longe do Alcochete-outlet), para depois o comboio voltar para Lisboa por mais uma ponte nova (Chelas-Barreiro), somando quase mais 100 quilómetros de puro passeio para se chegar ou sair da capital rumo ao Norte e Centro do país. 

É obra - e muitos milhões para alguém faturar em obras públicas. Aliás, num país que anda a comemorar a redução da dívida pública e os sacrifícios de uma década pós-troika, esta hipótese só pode fazer parte de um processo de alucinação coletiva.   (Continuar a ler)

(Manuel Deusdado, DN)