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sábado, 27 de janeiro de 2024

A Frase (20)

O regresso da sanidade ao processo Marquês - Afinal, a tese de Ivo Rosa, que transformou Carlos Santos Silva em corruptor de José Sócrates, ao arrepio de toda a lógica, era mesmo o que parecia – uma perfeita loucura.
(João Miguel Tavares, Publico)

O regresso da sanidade ao processo Marquês. Durante anos, demasiada gente andou a defender a tese de que Ivo Rosa era o verdadeiro “juiz das garantias”, embora a sua atitude constante em todos os casos de colarinho branco fosse os colarinhos saírem mais brancos do que tinham entrado em tribunal. Passos Coelho disse há dias que a perda de memória em política é fatal, porque a partir daí todos parecem iguais. Mas não é só em política. É em todo o lado, incluindo entre aqueles que comentam nos jornais e nas televisões com uma argúcia selectiva – às vezes são muito inteligentes, outras vezes parecem extremamente lerdos, consoante a matéria em causa e as amizades em jogo.

Temos De Ser Mais Humanos

 

Abram os olhos. Somos umas bestas. No mau sentido. Somos primitivos. Somos primários. Por nossa causa corre um oceano de sangue todos os dias. Não é auscultando todos os nossos instintos ou encorajando a nossa natureza biológica a manifestar-se que conseguiremos afastar-nos da crueza da nossa condição. É lendo Platão. E construindo pontes suspensas. É tendo insónias. É desenvolvendo paranóias, conceitos filosóficos, poemas, desequilíbrios neuroquímicos insanáveis, frisos de portas, birras de amor, grafismos, sistemas políticos, receitas de bacalhau, pormenores.

É engraçado como cada época se foi considerando «de charneira» ao longo da história. A pretensão de se ser definitivo, a arrogância de ser «o último», a vaidade de se ser futuro é, há milénios, a mesmíssima cantiga.
Temos de ser mais humanos.

(Miguel Esteves Cardoso)

sexta-feira, 26 de janeiro de 2024

Notícias Ao Fim Da Tarde

A Frase (19)

 O azar da AD - Perante as geringonças e os “casos” a que o poder socialista reduziu a política em Portugal, talvez fizesse sentido arriscar outra visão da vida pública. Talvez o país notasse a diferença.   (Rui Ramos,OBSR)

(...) Antes da convenção, foi Nuno Melo a defender, muito seguro, que a AD, se não ganhasse, devia ajudar a manter o PS no poder, mesmo havendo maioria para outra solução. No dia da apresentação do programa económico, foi a investigação na Madeira, com o presidente do governo regional suspeito de corrupção, e os outros partidos a fazerem comparações com o caso de António Costa. (...)

Como é possível, quando a AD e o Chega se acusam mutuamente de contribuir para o prolongamento do mando socialista, que os dirigentes da AD não tivessem arranjado meia hora para definirem uma posição conjunta e limpa sobre a hipótese de um governo minoritário do PS.

Desde A Aurora


Como um sol de polpa escura
para levar à boca,
eis as mãos:
procuram-te desde o chão,

entre os veios do sono
e da memória procuram-te:
à vertigem do ar
abrem as portas:

vai entrar o vento ou o violento
aroma de uma candeia,
e subitamente a ferida
recomeça a sangrar:

é tempo de colher: a noite
iluminou-se bago a bago: vais surgir
para beber de um trago
como um grito contra o muro.

Sou eu, desde a aurora,
eu — a terra — que te procuro.

Eugénio de Andrade,
em  "Obscuro Domínio"

quinta-feira, 25 de janeiro de 2024

Notícias Ao Fim Do Dia

A Frase (18)

Ideias erradas, mau planeamento, pior aprendizagem - Os maus resultados dos alunos revelam a degradação da aprendizagem, o fracasso da digitalização das provas e o fiasco deste modelo de aferição. O silêncio do Governo revela que esgotou as desculpas.   (Alexandre Homem Cristo, OBSR)

 Não existiu reacção oficial por parte do Ministro ou de outro membro do Governo.

É pena. Seria interessante conhecermos a posição do Governo sobre resultados que já foram descritos pelos professores como “desastrosos”, uma falha tremenda” da recuperação da aprendizagem ou, ainda esta semana, qualificados pela Associação de Professores de Português como globalmente maus” e demonstrativos de que os alunos não estão “a aprender o que deviam aprender”. O ponto já não é só os resultados serem preocupantes, é também os resultados contrariarem todo o discurso político dos últimos anos, quando nos foram dizendo que os alunos portugueses estavam a melhorar ou mesmo que já teriam recuperado do dano na aprendizagem durante a pandemia — o que faria de Portugal caso singular a nível internacional

A Consciência Da Inconsciência

 
A consciência da inconsciência da vida é o mais antigo imposto à inteligência. 
Há inteligências inconscientes - brilhos do espírito, correntes do entendimento, 
mistérios e filosofias - que têm o mesmo automatismo que os reflexos corpóreos, 
que a gestão que o fígado e os rins fazem de suas secreções.

(Fernando Pessoa, Livro do Desassossego)

quarta-feira, 24 de janeiro de 2024

Notícias Ao Fim Da Tarde


A Frase (17)

Justiça de 2024… - É uma tragédia quem nos julga e nada cumpre, e nem é sequer obrigado a cumprir. Esquecendo-se que os prazos processuais existem para proteger as partes intervenientes e o processo não ser infindável.       (Dantas Rodrigues, OBSR)


Novo ano, e os problemas da justiça da justiça não se alteram com a mudança de calendário. Embora o orçamento do ministério da tutela para o ano corrente ser o mais elevado de sempre, ou seja, qualquer coisa como 1,96 mil milhões de euros, representa um aumento de 15,3% em relação ao orçamento anterior, o que se traduz em mais de 260 milhões de euros.

Espera-se que tamanha quantia sirva para melhorar as infraestruturas da justiça.

Numa democracia consolidada, como se diz que é a nossa, a população em geral espera que um serviço público de justiça funcione. Mas não: em Portugal funciona como os comboios da CP, nunca chegam à tabela. E, o que é pior, nem sempre se pode confiar que no dia do julgamento marcado há mais de um ano não haverá greve, ou ele não se realize pela falta de sala de audiências disponível para acolher aqueles que se deslocaram e perderam, além do seu precioso tempo, um dia de trabalho e um dia de vencimento, porque as faltas não são remuneradas.

Dececionante é o mínimo que se pode dizer da organização da nossa justiça. 

Se se quiser reduzir a contínua perda de eficiência e a lentidão dos tempos de resolução terá de se avançar para a revisão das leis processuais, mas uma revisão que permita uma maior eficiência digital do serviço de justiça, desmaterializando os processos e permitindo, por exemplo, que as testemunhas, os peritos e outros intervenientes acidentais nas diligências judiciais deponham regularmente através dos meios à distância e, excecionalmente, o façam de modo presencial. Isso, sim, seria caminhar para uma verdadeira raiz digital, tornando o serviço público mais acessível, transparente e eficaz. Mas é este modelo de justiça, lenta e imprecisa, que ouvimos quase diariamente a ser louvado pelos nossos governantes, como se fosse um exemplo europeu. Enfim, justiça de 2024.