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quinta-feira, 14 de março de 2024

A Frase (59)

Em rigor, André Ventura nem precisava de fazer campanha desde 2019; todos fizeram campanha por ele, a começar por um PS que viu no Chega o seu passaporte para a “mexicanização” do regime, ou seja, para se eternizar no poder.    (João Pereira Coutinho, Sábado)

AD – Em teoria, era preciso reconquistar o centro e evitar a fuga de votos para a direita. Mas, como dizem os brasileiros, na prática a teoria foi outra: a votação da AD não destoa dos números que PSD e CDS tiveram em 2022. O “recentramento” do partido e o apelo ao voto útil terão, quando muito, segurado essa votação, o que não é negligenciável ante a espantosa subida do Chega. Agora, com um governo minoritário, só há uma forma de Luís Montenegro sobreviver: mostrando serviço aos portugueses – na saúde, na educação, na habitação, nas pensões, nos salários – para que uma “coligação negativa” do Chega e do PS seja de facto negativa para ambos. Para isso, é também necessário negociar com eles, ou pelo menos tentar: o maior favor que Luís Montenegro podia fazer a Pedro Nuno e a André Ventura era deixá-los sozinhos a brincar no recreio.

Refém Da Lua

 


Sou refém da lua cheia
ela entra pelo quarto
conhece-me os desejos
os beijos guardados
as sombras e crateras do meu cativeiro
sou refém da meia lua
ela me sabe os pedaços
tristezas e segredos
invade-me à madrugada
assiste o amor arder
sem endereço
sou refém de mim
a lua é pretexto

(Alice Ruiz)

quarta-feira, 13 de março de 2024

Notícias Ao Fim Da Tarde

A Frase (58)

Há democratas e democratas. Há os que aceitam os resultados eleitorais como reflexo do que, em cada momento, a sociedade pensa, e os democratas que só apreciam a democracia direta quando esses resultados lhes agradam.          (Pedro Cruz, DN)
A noite de domingo não trouxe previsibilidade, nem governabilidade, nem facilidade na formação de um Governo estável, mas o resultado é a decisão do povo soberano. Esse povo tantas vezes evocado, mas também tantas vezes esquecido por quem governa ou faz oposição. (...)

O Chega e o seu milhão de votos? Nada surpreende, foram arrancados ao PS e à abstenção. Não há, em Portugal, um milhão de pessoas racistas, xenófobas e radicais. Mas há um milhão que deixou de acreditar nos partidos do costume, que está farta de tantos impostos e de tanto Estado, que canaliza esse descontentamento para o voto. Os desencantados com o “regime” são aqueles que não viram em 50 anos resposta para os problemas do dia a dia. Cada voto no Chega é da responsabilidade do PS e do PSD. O centrão já não consegue reter os desencantados. (...)

É possível que tenhamos de voltar às urnas ainda este ano. Se isso vier a acontecer por causa dos jogos palacianos no Parlamento, fica já o aviso - não estranhem se o Chega subir ainda mais. Depois não vale deitar as mãos à cabeça e chorar sobre leite derramado. O tempo, agora, é de responsabilidade e não de tática. De construção e não de bota abaixo. De serenidade e não de gritaria. Se cada um fizer o seu papel, se os resultados eleitorais forem respeitados, se o Governo que vier governar bem, talvez os descontentes voltem “a casa”. O povo é quem mais ordena não pode ser só um verso de uma cantiga.

Aprendi O Que Separa O Desespero Da Melancolia


Aprendi o que separa o desespero da melancolia,
Penetrei em um mundo cuja novidade me estarrece
e a secura, da serenidade; conheci as hesitações
do coração, seus delírios, o brilho das grandes
renúncias e os murmúrios subterrâneos da esperança.
Exaltava-me como nas noites em que contemplava
o céu cambiante por detrás das colinas azuis; eu era
a paisagem e o olhar: só existia por mim e para mim.
Felicitava-me pelo exílio que me impelira para tão
grandes alegrias; desprezei os que a ignoravam e
espantei-me por ter podido viver tanto tempo sem
elas.

Simone de Beauvoir,

terça-feira, 12 de março de 2024

Notícias Ao Fim Da Tarde

A Frase (57)

Reflexão - A Montenegro cabe encontrar pontes sem entregar o país ao bloqueio político, dialogando à esquerda e à direita. A Pedro Nuno, definir as áreas-chave em que o contributo do seu partido seja crucial à democracia. A Ventura, a noção de que um milhão de votos não é coisa pouca. É muito mais do que fermento que alimente o seu ego e projeto político. (Diana Ramos, J Negócios)

Errámos [...] ao desvalorizar a tendência crescente de representação de partidos antissistema e colados ao ideário da extrema-direita no espaço europeu, acreditando que ficaríamos à margem por mais algum tempo. Errámos ao acreditar que os partidos tradicionais dariam respostas aos descontentes e desacreditados. Errámos ao aplicar rótulos sem aprofundar.  

Nota: Bilhete Postal - Montenegro entrará em pré-campanha assim que tomar posse.

Abrir Portas


Vá, pois velhos caminhos não abrem novas portas
Vá, não se esconde, mete a cara no mundo e procura o seu lugar.
Tem espaço para todos, é só não desistir de encontrar.
Se algumas portas ao longo do seu caminho estiverem fechadas, 
não desanima, entra por chaminés, janelas e frestas.
O importante é entrar.

(Karol Pinto)



segunda-feira, 11 de março de 2024

Notícias Ao Fim Da Tarde

Estas São As Frases

    
 A convicção de Eanes, de que os portugueses “mesmo quando parece que votaram mal, em geral votaram bem”, é mais que uma aparente banalidade bem-intencionada, é a reafirmação de que há um país sábio para além dos círculos cada vez mais fechados das rarefeitas esferas do poder - ministros, deputados, autarcas, altos-funcionários do Estado nomeados pelo partido no poder, banqueiros e empresários com dinheiro e influência, comentadores encartados e jornalistas.  
(José Júdice, DN)

De que há um país feito de gente anónima, pessoas que trabalham, que estudam, e de uma faixa cada vez maior que deixaram de trabalhar e dependem do Estado - pela Segurança Social, pelo Serviço Nacional de Saúde, pelas autarquias - para terem o que comer, para terem um tecto debaixo do qual dormir, e para terem quem os trate na doença e na necessidade. Mas que dependem também, e cada vez mais do apoio privado, venha ele das muito antigas IPSS, como misericórdias e tantas outras patrocinadas pela Igreja Alimentar quem tem fome, abrigar quem não tem tecto, socorrer quem não tem auxílio, defender quem não tem força. Pobres, quase dez por cento da população, velhos, quase um quarto, e imigrantes, quase dez por cento dos que vivem em Portugal - explorados, olhados com desconfiança e mal-tratados com sobranceria e frieza burocrática pelos serviços públicos que os deviam acolher e proteger. 

A esquerda engordou o Chega. Agora foi comida por ele - O sentimento anti-sistema é tão profundo que o Chega repolitizou o país, com a abstenção mais baixa destes 30 anos. Isso confere a Ventura uma dupla legitimidade para se impor à mesa dos grandes. (João Miguel Tavares, Público)

À hora a que escrevo este texto ainda não é claro se é a AD ou o PS quem vence as eleições; mas à hora a que escrevo este texto já é claro que ambos foram politicamente derrotados pela impressionante ascensão do Chega. André Ventura andou perdido na campanha eleitoral e limitado pelo “não é não” de Luís Montenegro, mas aquilo que os resultados demonstram é que criou uma base eleitoral fortíssima, socialmente transversal e que atravessa o país de norte a sul e do continente às ilhas. 
Em nove anos, as manobras do PS implodiram a esquerda, a direita democrática, uma maioria absoluta e um sistema político. A culpa não é dos boletins de voto. (Sebastião R. Bugalho )